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sábado, 17 de dezembro de 2016

A HISTÓRIA DE ÁNDROCLES E O LEÃO FERIDO



Adaptação de Nicéas Romeo Zanchett 
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                  Todos já ouviram falar do Coliseu romano, onde as feras atacavam e despedaçavam
pessoas ali jogadas para o prazer da multidão sedenta de sangue e principalmente dos imperadores e seus amigos e convidados. 
                 Este pequeno conto popular reapareceu na Idade Média como "O pastor e o Leão"; desta vez atribuído a Esopo por sua forma e também pela sua moral de reciprocidade e misericórdia.  E realmente é bem parecido com a fábula O leão e o rato.
A primeira narração clássica da história é encontrada no livro quinto de (Noctes Atticae) "Noites Áticas", escrito no século II. 
Segundo o autor Aulo Gélio, em seu livro (AEgyptiacorum) "Maravilhas do Egito" esta história teria sido contada por Apião que alegou te-la testemunhado pessoalmente. 
Nicéas Romeo Zanchett 


ÁNDROCLES E O LEÃO FERIDO 
                Ándrocles era um pobre escravo que pertencia a um ex-cônsul romano, administrador de uma grande parte da África. Segundo conta a história ele sofria muito sob o domínio de seu cruel dono e fugiu para uma floresta na tentativa de chegar à costa marítima e então voltar para Roma. 
                Em sua tentativa não mediu esforços pois sabia que se fosse preso novamente sua morte seria inevitável. Pacientemente esperou uma noite escura, sem lua e fugiu. Atravessou a cidade e andou  pelos campos tentando chegar a uma floresta, onde teria mais condições de se esconder. Continuou caminhando, sempre pensando em chegar à costa marítima, mas sem rumo certo acabou penetrando no solitário deserto do interior daquele imenso país.  Já era noite e estava muito cansado, então resolveu repousar ali mesmo.
                No dia seguinte, ao acordar, Ándrocles se deu conta de que havia dormido no covil de um enorme leão. Logo percebeu que não tinha como sair daquela situação, pois a leão estava impedindo sua passagem. Paralisado e horrorizado sentou-se e pacientemente esperou pelo momento em que a fera o devoraria. Mas, para sua surpresa, o animal não fazia nenhum movimento em sua direção.
                 Imaginou que o leão deveria estar sem fome e aguardando algum outro momento para  saciar-se. Foi então que percebeu que a fera choramingava muito e lambia uma das patas dianteira de onde escorria sangue. Ándrocles esqueceu e terror que sentia e, percebendo o sofrimento do animal, aproximou-se lentamente. 
                 O leão continuou inerte e levantou a pata como que a pedir auxílio. Ándrocles viu que naquela pata havia um grande espinho, que já lhe produzira uma perigosa inflamação. Num rápido movimento extraiu o espinho, deteve a inflamação e estancou o sangue.
                  Aliviado de sua dor, o agradecido leão saiu da caverna e em poucos minutos voltou com um coelho morto e o depositou aos pés de Ándrocles.
                  Depois de assar e comer o coelho, sentiu-se mais confiante; o leão deu sinal de que iria sair novamente e, como se fosse um amigo, o convidava a segui-lo. Não demorou muito e os dois chegaram a um local onde havia muita água fresca. 
                  Por três anos, os dois amigos viveram e caçaram juntos. Durante a noite o leão sempre dormia ao seu lado, movimentando o rabo,  como se fosse um cão que se deita aos pés do seu dono quando está feliz. 

                  O desejo de voltar a Roma sempre esteve em sua memória. Estava feliz ao lado do amigo leão, mas sentia falta de seus semelhantes. Depois de muito pensar deixou finalmente a caverna.  Foi logo preso por soldados patrulheiros e mandado de volta para Roma como escravo fugitivo.  
                  Os antigos romanos eram extremamente cruéis com escravos fugitivos, e Ándrocles foi condenado a ser despedaçado pelas feras do Coliseu no primeiro dia de festa. 
                  A notícia correu a cidade e uma grande multidão dirigiu-se ao local para assistir ao triste espetáculo que sempre contava com a presença do imperador rodeado por seus senadores. 
                  Começada a festa, deram uma lança a Ándrocles e o puseram na arena.  Todos sabiam que, mesmo com uma lança,  ele não teria a menor chance de vencer aquela fera e sobreviver. 
                  Os soldados haviam capturado um grande leão que fora mantido por vários dias sem alimento para torná-lo mais agressivo e feroz. Ele foi escolhido para enfrentar o pobre escravo. 
                  Quando o leão esfomeado foi finalmente solto na arena Ándrocles apavorado deixou cair a lança das mãos enquanto o animal dirigia-se velozmente em sua direção. 

                  Para surpresa de todos os presentes, em vez de o atacar e destroçá-lo, o leão agitou amigavelmente a cauda e lambeu-lhe as mãos. Foi só então e Ándrocles percebeu que aquele era seu amigo de caverna; acariciou-o, inclinou-se sobre sua cabeça e chorou. 
                  A multidão ficou maravilhada com aquela prodigiosa cena e o imperador, sem entender nada, mandou que trouxessem o escravo para lhe explicar o ocorrido. 
                  Ándrocles contou-lhe então a sua história fazendo uso de toda sua sinceridade. O imperador ficou tão impressionado que resolveu devolver-lhe a liberdade; além disso doou-lhe o leão e uma boa soma em dinheiro. 
                  E foi assim que Ándrocles ficou conhecido a estimado por todos que o aplaudiam quando passeava pelas ruas de Roma com seu companheiro fiel. 
Nicéas Romeo Zanchett - 

domingo, 30 de agosto de 2015

O ESPELHO DO JAPONÊS


Um conto japonês
 Por Nicéas Romeo Zanchett 
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              Numa pequena aldeia japonesa vivia um casal que muito se amava e estavam sempre felizes. 
              Todos os dias o marido  saía muito cedo para trabalho caminhando pela rua onde poucas pessoas encontrava. 
              Tudo corria às mil maravilhas até que num certo dia, quando andava pensativo e olhando para o chão, encontrou um pequeno espelho de bolso. Imediatamente abaixou-se e o apanhou. Qual não foi seu espanto quando ali viu a foto do seu velho pai já falecido. Depois de muito olhar e matar a saudade embrulhou aquele pequeno tesouro num lenço e o guardou no bolso para que ninguém mais o vice. 
              A noite, ao voltar para casa, tratou de esconder seu precioso retrato. Escolheu um local onde ninguém imaginaria encontrar algo: atras de um armário antigo que havia na cozinha. 
              Todos os dias, antes de sair e quando chegava do trabalho, dava um jeito de ver a fotografia sem que sua mulher percebesse. 
               Sua mulher já andava desconfiada com alguns novos hábitos do marido, mas nada falou. Até que numa noite ficou espionando a chegada do fiel companheiro. Como sempre, ele chegava e ia ver a fotografia do seu falecido pai. Dessa forma ela descobriu que ali havia um segredo. 
              Como todos sabem não pode haver segredo entre marido e mulher japonesa. Todos sabem também que os japoneses são fisionomicamente muito semelhantes e isso muitas vezes causa confusão de identidade.
               Ela esperou o marido dormir e foi ver o que havia de tão importante atrás daquele armário. Ao olhar o espelho seu susto foi imediato; seu marido tinha outra mulher e aquela era a fotografia que provava tal fato. 
                Durante a noite ela não conseguiu dormir e logo pela manhã interpelou o marido; 
                - Então você anda me traindo com outra! e não adianta negar porque tenho a prova.
                - Como pode pensar isto? você é a única em minha vida e sabe muito bem disso. 
                - Mentiroso! Traidor! aqui está a prova; uma foto dela que encontrei atrás do armário. 
                - Calma mulher; esta foto é do meu falecido pai.
                - Como pode ser tão cínico? 
                E a discussão não tinha fim. 

                Naquele momento, por ali passava um velho monge que todas as manhãs andava pela rua meditando e orando. Diante de tão feroz discussão, resolveu intervir para apaziguar o casal. Aproximou-se   e da porta perguntou o que estava acontecendo para tal discussão. 
                A mulher, ainda cheia de raiva, explicou:
                - Meu marido está me traindo com outra; encontrei uma foto dela que ele mantinha escondida atrás do armário. 
                - Deixe-me ver, disse o velho monge. E apanhou o pequeno espelho.
                - Ora, minha senhora, não é nada do que está pensando; Esta foto é do meu irmão, que também era monge e morreu no mar, durante uma tempestade, quando pescava. Esta foto lhe pertencia e deve ser levada ao local onde ele faleceu para que ele finalmente descanse em paz. E foi embora levando a foto que depois atirou ao mar. 
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MORAL DA HISTÓRIA
Às vezes julgamos pelas aparências e não aceitamos explicações. É preciso ter calma e sempre ouvir os dos lado da história para juntos chegar a um acordo. 
Nicéas Romeo Zanchett 

domingo, 12 de julho de 2015

PARÁBOLA DO TALMUD SOBRE A DEMOCRACIA

Embora não pratique nenhuma religião, costumo estudar todas aquelas que procuram transmitir bons ensinamentos com princípios voltados para o bem da humanidade, do amor ao próximo, à natureza e aos animais.
Foi nos meus estudos sobre o Talmud que me deparei com uma interessante fábula sobre a democracia. Ela é bem elucidativa para o momento do Brasil que está mergulhado na corrupção política que desemprega e agrava a fome dos menos favorecidos. 
Nicéas Romeo Zanchett 
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PARÁBOLA CONTRA A DEMOCRACIA. 
                    Conta-se no Talmud que um velho e sábio rabino chamado Josué afirmava que enquanto as baixas camadas se submeterem à direção das altas camadas da sociedade tudo irá bem. As últimas decretam, e Deus confirma. Dessa forma resulta a prosperidade do Estado. Mas quando as altas camadas, por motivos corruptos ou falta de firmeza, se submetem, ou são influenciadas pelas opiniões das camadas sociais com pouco conhecimento administrativo, é certo caírem juntas; e a destruição do Estado será inevitável. Para ilustrar seu pensamento relatou a fábula da cauda e da cabeça da serpente. 
                    Por muito tempo, a cauda da serpente tinha seguido a cabeça, e tudo estava bem. Um dia começou a estar descontente com este arranjo da natureza, e dirigindo-se nestes termos à cabeça: 
                    - Há muito tempo que observo com indignação o teu injusto procedimento. Em todas as nossas viagens, és tu que tomas a dianteira, enquanto eu, como um criado servil, sou obrigado a seguir-te. És sempre a primeira a aparecer em toda a parte e eu, como um miserável escravo, tenho que andar atrás.  Isto é justo? Não sou eu um membro do mesmo corpo? Porque não poderei dirigi-lo tão bem como tu? 
                    - Tu, exclamou a cabeça, tu, rabo imbecil queres dirigir o corpo? Não tens olhos para ver o perigo, nem ouvidos para te avisarem dele, nem cérebro para o evitar. Não entendes que é para tua vantagem que eu dirijo e o guio pelo melhor caminho? 
                   -  Para minha vantagem, não é verdade, disse a cauda. Essa é a mesma linguagem de todos os usurpadores. Pretendem reger para o bem dos seus escravos; mas não me submeterei mais tempo a semelhante estado de coisas. Insisto que a partir de agora devo tomar a dianteira.  
                   - Pois bem, replicou a cabeça, já que se diz tão competente, que assim seja; mas depois não diga que não o avisei dos perigos. Portanto a partir de agora guia tu e veremos.
                   A cauda regozijou-se e tomou a dianteira. A primeira façanha foi arrastar o corpo para uma fossa de lodo. A situação não era das mais agradáveis. A cauda lutou muito andando sem rumo apalpando os obstáculos que não conseguia ver. Com grande esforço conseguiu sair da lama; mas o corpo estava tão coberto de imundice que nem parecia pertencer à mesma criatura. A façanha seguinte foi enroscar-se sobre cipós e espinhos selvagens. A dor foi intensa; o corpo inteiro ficou ferido gravemente. Aqui teria sido o fim de tudo se a cabeça não tivesse vindo a seu reboque; mostrou-lhe então a melhor maneira de sair daquela situação e assim foram salvos. Mas a cauda não se conformou com seus próprios erros e insistiu em continuar administrando a  dianteira. Continuou a marchar; e quis o acaso que entrasse numa fornalha acessa à mais de mil graus. Em questão de segundos começou a sentir os efeitos do calor que ameaçava destruí-lo em poucos minutos. O corpo inteiro ficou congestionado; foi um lance terrível. Mais uma vez a cabeça veio em seu auxilio na tentativa de salvar a todos. Mas já era bastante tarde e a cauda havia sido consumida pelo fogo. Apesar dos esforços da cabeça, o fogo continuava implacável destruindo rapidamente o resto do corpo. Portanto a cabeça também foi destruída.
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MORAL DA HISTÓRIA : A destruição da própria cabeça foi permitir ser guiada pela cauda. Esse será seguramente o destino das altas camadas se se permitirem serem dominadas pela vontade de políticos inexperientes e populistas. 
NOTA FINAL: O Brasil está vivenciando essa mesma situação por ter entregue seu destino nas mãos de políticos corruptos, populistas, desonestos e incompetentes. 
Nicéas Romeo Zanchett 
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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

TIGRE, O PEREGRINO E A RAPOSA.


               Na Índia havia um tigre que costumava atacar os viajantes que passavam pela floresta onde ele morava. As tribos locais então resolveram capturá-lo para evitar uma tragédia, pois o animal estava cada dia mais agressivo. 
              O tigre foi capturado e deixado na beira de um caminho para que lhe fosse fornecido alimento e água. Mas o animal não se conformou e em vão lutava desesperadamente para sair daquela armadilha. 
              Numa certa manhã passava por ali um peregrino que se compadeceu e lhe deu algum alimento, mas o tigre se mostrava furioso e mordia as barras de ferro com raiva, queria sair daquele lugar e voltar para floresta. Depois de comer a porção oferecida pelo peregrino pensou: "este peregrino me parece um bom homem e posso convencê-lo a libertar-me". Então disse ao peregrino:
               - Piedoso homem, solte-me desta gaiola pois preciso voltar para minha família. 
              O peregrino ficou comovido, mas estava com medo daquela enorme fera e disse-lhe:
               - Não posso fazer isso porque que se o fizesse o amigo, que está com muita fome, certamente me comeria.
                - Ora, eu jamais faria isso com uma pessoa tão boa que me tenha ajudado num momento tão difícil, retrucou o tigre. - Pelo contrário, ser-lhe-hei eternamente grato. 
                Tanto chorou, jurou  e suspirou que o peregrino resolveu arriscar-se e libertá-lo. Em seguida deu-lhe de beber da água que trazia para sua viagem. 


             Já em liberdade, o tigre disse: 
              - Lamento, mas estou com muita fome e terei de comê-lo para saciar-me. Na verdade você foi muito bobo em confiar nas palavras de um preso faminto e agora nada pode fazer para impedir-me.
              Em vão o peregrino tentava convencê-lo a seguir seu caminho e voltar para floresta. Resolveu então apelar pela ajuda da árvore que lhes fazia sombra, mas esta respondeu-lhe friamente: 
              - De que se queixa você? Eu estou aqui ha muito tempo, sempre dando sombra a todos que passam sem nada receber em troca. O que me fazem é quebrar meus galhos e arrancar minhas folhas. Você foi um bobalhão e agora não deve chorar por sua ingenuidade.
              O peregrino ficou muito triste com aquela resposta quando avistou, ao lado de um rio, uma vaca que pastava. Resolveu pedir-lhe ajuda, mas o resultado não foi nada melhor. Disse-lhe a vaca: 
             - Você é um tolo se espera por gratidão de alguém. Olhe para mim que forneci leite de boa qualidade aos filhos do meu dono e só recebi capim magro em troca; agora que estou velha e não produzo a quantidade de leite que precisam eles me abandonaram e tenho que comer qualquer coisa para não morrer de fome. 
              O peregrino, não vendo mais ninguém, dirigiu-se à estrada pedindo sua opinião.
               - Meu caro viajante - disse a estrada - noto que é realmente um tolo em imaginar que soltando esta fera teria sua gratidão. Veja o meu caso; estou aqui sendo útil a todos: ricos e pobres, grandes e pequenos, todos passam sempre por aqui e jogam cinzas, pontas de cigarro, latinhas, garrafas descartáveis, lixo de toda a espécie sem se importar como me sinto. 
                Com tantos depoimentos desanimadores o peregrino já se preparava para morrer.
                Atras de uma moita havia uma esperta raposa que a tudo observava sem dizer nada. Vendo a situação do peregrino resolveu intervir. 
                 - E então, senhor peregrino; está parecendo um peixe fora d'água!
                 O peregrino explicou-lhe tudo o que tinha acontecido.
                 O tigre só olhava e esperava o momento de sua farta refeição.
                  Depois de ouvir sua história disse-lhe a raposa:
                 - Mas em que embrulhada o senhor se meteu. Mas faça-me o favor de contar tudo de novo que não entendi nada. Parece uma grande trapalhada. 
                 O peregrino repetiu a mesma história por várias vezes e a raposa sempre dizia que não havia entendido. 
                O tigre já não aguentava aquela história sendo repetida sem que a raposa entendesse. Para abreviar o assunto e poder comer finalmente o peregrino resolveu explicar ele mesmo para que a raposa fosse logo embora. 
                - Esse palerma não está sabendo explicar. Eu estava preso naquela jaula e no momento que ele passava por aqui ficou com pena de mim e me soltou. 
                Fingindo estar com muito medo daquelas garras a raposa disse:
                 - Naturalmente, senhor; finalmente estou compreendendo, mas minha cabeça está um pouco zonza; Vejamos: o tigre estava no peregrino e a jaula vinha passando, Foi isso que aconteceu?  O tigre, já revoltado, mas disposto fazer a raposa entender disse: 
                 - Você é outra estúpida, mas hei de fazê-la entender porque sou muito inteligente. Ouça: eu sou o tigre, esse é o peregrino, e esta é a jaula. Então a raposa percebeu que seu plano estava dando certo e disse: 
                 - Ainda não entendi onde o senhor tigre estava. 
                 Nesse momento o tigre perdeu a paciência, entrou na jaula e disse: 
                  - Estava aqui dentro preso, sua ignorante!. 
                  A raposa imediatamente trancou a parta da jaula e disse: 
                  Agora finalmente entendi tudo e dessa forma as coisa voltam a ser como estavam. 
                 O peregrino agradeceu à raposa e segui seu caminho. 
Nicéas Romeo Zanchett 

domingo, 17 de agosto de 2014

O FIEL CÃO DO HERÓI ULISSES - Da guerra de Tróia

Argus o fiel cão de Ulisses
Por Nicéas Romeo Zanchett 
                 A guerra de Troia é uma das mais antigas e conhecidas histórias do Mundo. Seu heroi foi Ulisses, também chamado de Odisseu. 
                 Esta é uma história comovente sobre seu fiel cão que nunca o esqueceu e esperou por sua volta até o final da vida.
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                 Antes de Odisseu (Ulisses) partir de sua casa para lutar nas guerras de Troia, nasceu um cãozinho que cresceu e se tornou um grande e lindo galgo. 
                  Odisseu adorava seu belo cão e deu-lhe o nome de Argus. Seu amor era muito bem retribuído por seu fiel cão que ladrava e mostrava-se muito satisfeito sempre que ele chegava de algum lugar. Passava seus dias acompanhando-o, fazendo festas, sempre abanando e mostrando seu profundo amor ao seu dono. Sempre que o herói estava em casa, passavam o tempo todo juntos.  Isso aconteceu até sua partida para a Guerra de Troia.
                  Odisseu (Ulisses) ficou muitos anos auzente. Quando partiu, seu fiel cão ainda era jovem, mas o tempo passou e mesmo após dez anos de luta continuou viajando ainda por muitos anos até finalmente regressar para sua mulher e seus verdadeiros amigos. 
                   Durante todo esse tempo Argus envelheceu, mas nunca esqueceu seu dono e nem deixou de esperar por sua volta. 
                    Quando, enfim, chegou a Itaca já estava muito envelhecido e mudado pelo sofrimento que passou durante aqueles anos de constantes lutas. Dirigiu-se ao palácio, onde ninguém o reconheceu. Mas Argus estava lá, junto ao portão à sua espera; quando viu Odisseu e ouviu sua voz, abanou o rabo, e usando suas últimas forças foi ao encontro do seu dono; com muita dificuldade levantou a cabeça, como se quisesse despedir-se, e morreu. Odisseu não se conteve e chorou amargamente. Chegava ao fim da vida o seu mais fiel amigo e único que o reconheceu em sua volta para casa.
Nicéas Romeo Zanchett 
Você pode conhecer a hiustória completa de Ulisses em >AS MAIS VELHAS HISTÓRIAS DO MUNDO

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

UM SEGREDO BEM GUARDADO - Nicéas Romeo Zanchett


                   Essa história aconteceu nos Pampas Gaúcho. 
                   Havia um velho fazendeiro que vivia com medo de feitiçaria. Um dia chegou em casa se mostrando muito assustado e sua mulher lhe perguntou o que estava acontecendo. Ele lhe respondeu:
                   - Trata-se de um segredo e não posso contar para que não se espalhe pela vizinhança.
                   - Mas você não confia na sua própria mulher? pode contar que da minha boca não sai nem pensamento.  
                   Sua mulher ficou muito curiosa e tanto insistiu que ele acabou contando uma história bem estranha. Disse ele: 
                   - Você não imagina o que aconteceu com a "Mocha", nossa vaca holandesa que mais dá leite; e continuou, tenho medo até de pensar, mas vou falar se me prometeres não contar a ninguém. 
                   - Imagine! tu sabes que sou um túmulo. Podes ficar tranquilo. 
                   - Está bem, mas olha lá se não vais dar com a língua nos dentes! Hoje, pela manhã fui até a estrebaria e qual não foi meu susto; a "Mocha" defecou um corvo bem preto que saiu voando; só pode ser feitiçaria da braba que mandaram pra nos prejudicar. 
                   - Nossa! meu amor. Pode ficar tranquilo que ninguém mais vai saber, pois da minha boca não sairá nem um pio. 
                   Mas o segredo ficou martelando o cérebro da gaúchinha. No dia seguinte, quando o marido saiu para campear, ela rumou imediatamente para a casa de uma amiga muito próxima. Chegou e foi logo dizendo: 
                   - Vim aqui falar contigo porque já não aguento mais; este segredo do meu marido está me torturando desde ontem. 
                   A amiga, que era a mais fofoqueira dos pampas, ficou tão curiosa que foi logo suplicando: 
                   - Contes logo senão quem morre angustiada sou eu.  
                   Está bem, mas tu vais me prometer que não contará a ninguém, nem a seu marido; e começou a contar ocorrido:  
                   - Imagine você que a nossa "Mocha", a melhor vaca leiteira de toda a região, está enfeitiçada; ontem ela defecou dois corvos, que airam voando, e deixou meu marido apavorado. 
                    - Nossa! isto é mesmo muito esquisito, mas fique tranquila que ninguém mais saberá; este segredo vou levar para o túmulo. 
                    Quando o marido chegou, ela não aguentou e contou-lhe:
                    - Gaudêncio, você não sabe da maior tragédia que aconteceu na fazendo do velho Simão. Vou te contar porque senão morro angustiada. Imagine você que a Maria esteve aqui e me contou que a vaca "Mocha" da fazenda deles defecou dez corvos pretos que saíram voando; trata-se de um poderoso feitiço que jogaram no velho Simão. Eu te contei porque és meu marido, mas é um grande segredo e não podes contá-lo a ninguém. 
                     - Nossa! que barbaridade the! E prometeu solenemente que não contaria a ninguém. 
                    No dia seguinte era domingo e todos costumavam se reunir no bar Ernesto depois da missa. O simpático gaúcho Gaudêncio, depois de tomar alguns tragos de cachaça, começou seu falatório. 
                      - Eu sei de um segredo que é uma bomba! mas não posso contar porque prometi pra minha mulher.
                      Não demorou muito e todos se achegaram pra perto do gauchão, insistindo que contasse. Ele então falou: 
                      - A fazenda do velho Simão está enfeitiçada. A vaca mais leiteira dele defecou sessenta corvos pretos que saíram voando pelos pampas. 
                      E dessa forma a notícia espalhou-se como plumas ao vento até que o padre do local foi chamado com urgência. Chamaram também o velho Simão para contar sobre o acontecido. Ele então explicou: 
                     - Na verdade, trata-se de uma brincadeira que fiz para conhecer o tamanho da língua da minha mulher; ela sempre se orgulhou de saber manter nossos segredos e vejam o que aconteceu. 
                     Quando a gaúcha soube da verdade mandou que o velho Simão fosse dormir na estrebaria. Três noites de castigo.
Nicéas Romeo Zanchett 

MORAL DA HISTÓRIA: Um segredo não se conta para ninguém; se mais de um souber logo todos saberão. 
                      
                  

AS ARMADILHAS DA VIDA - Nicéas Romeo Zanchett


                Houve um rei chamado Dario que tinha três filhos a quem amava muito. Depois de reinar por longos anos envelheceu e estava no leito da morte. Tinha então que dividir os seus bens entre os filhos. 
                Sentindo muitas dores, passou a noite pensando em como cumprir esta  última tarefa com a mesma justiça que sempre norteou suas decisões. Então decidiu: ao primogênito legou o seu reino; ao segundo filho todos os bens pessoais; ao terceiro um anel de ouro, um colar e uma valiosa peça de tecido. O anel tinha o poder conquistar as pessoas e despertar amor naquele que o usasse; além disso, obtinha-lhe tudo aquilo que desejasse. O colar permitia que quem o estivesse usando ao pescoço obtivesse o que seu coração mais desejasse; e o tapete tinha a virtude de permitir a quem sentasse sobre ele e pensasse para onde queria ir e imediatamente lá se encontraria.  O rei deu essas três  dádivas ao filho mais novo para ajudá-lo nos estudos e depois vencer na vida; mas sua mãe deveria conservar consigo seu dote ate ele ter mais idade, pois ainda era muito novo. Feito isto o velho monarca morreu em paz e foi enterrado com todas as honras tão merecidas,  sempre acompanhado pela multidão que muito o amava. 
               Os dois filhos mais velhos logo tomaram posse de suas heranças e cada um procurou administrar seu legado à sua maneira. 
               A mãe resolveu entregar logo o anel ao filho mais novo, mas deu-lhe logo o aviso para tomar toda a cautela com os artifícios das mulheres, porque se assim não o fizesse iria perdê-lo. Este tomou posse do anel e com muito esmero dedicou-se inteiramente aos estudos. Um dia, porém, caminhando pela rua viu uma mulher tão bela que imediatamente  apaixonou-se; ela era uma prostituta interesseira, mas, mesmo assim tomou-a para sua mulher e companheira. Continuou usando o anel e dessa forma agradava a todas as pessoas e tinha tudo o que desejava.
                Tudo corria às mil maravilhas, mas sua mulher vivia imaginando como era possível ele viver em tão grande esplendor  não tendo nenhum bem material; ela então aproveitou-se de um dia em que  ele estava muito alegre para abraçá-lo carinhosamente e dizer que jurava não haver ninguém no mundo que o amasse tanto quanto ela. Dessa forma, imaginava ela, ele deveria dizer-lhe com que meios sustentava todo aquele luxo em que viviam. Ele, nada suspeitando, explicou-lhe tudo sobre as virtudes do anel herdado de seu pai. Sabendo a verdade ela  ficou a imaginar como apoderar-se daquele anel; disse-lhe então:
                 - Acho que deves tomar muito cuidado com seu tesouro tão valioso; temo que nas tuas relações diárias  com muitas pessoas não confiáveis podes perdê-lo, portanto, é melhor deixar-me guardá-lo em lugar seguro. Confiando em suas suplicas, deu-lhe o anel; e, quando teve necessidade dele, ela afirmou com muita veemência que os ladrões o tinham levado. Ele ficou muito inconformado e desesperou-se por não ter mais meios de subsistência; sem saber o que poderia fazer foi falar com sua mãe contando-lhe tudo o que havia ocorrido.
                     - Meu filho, disse sua mãe, eu te avisei sobre as espertezas das mulheres e não deste atenção aos meus conselhos.  Mas, aqui tens o colar deixado por seu pai; guarda-o com mais cuidado. Se perderes ficarás sem uma coisa muito importante para sua vida. 
                     O filho tomou o colar e logo voltou aos estudos. Quando chegou à cidade sua amante veio imediatamente, mostrando-se muito alegre com sua volta.  Ele continuou vivendo com ela e sempre usando o colar ao pescoço; dessa forma continuava possuindo tudo o que desejava.  Como antes, vivia com muito luxo e sua mulher continuava admirada, por saber que não possuía bens, nem ouro e nem prata alguma. Depois de muito pensar chegou á conclusão de que ele tinha  conseguido outro talismã e habilmente arrancou-lhe a história do colar maravilhoso. 
                    - Porque, perguntou ela, sempre andas com esse colar? Deveria pensar em coisas mais importantes para sua vida e deixar-me guardá-lo. 
                    - Não, disse ele, perderias o colar como perdeste o anel e assim farias um mal irreparável para nós dois.
                    - Oh meu querido senhor, respondeu ela, por ter perdido aquele anel aprendi muito bem como guardar as coisas importantes e te asseguro que ninguém o tirará de mim. 
                    Mais uma vez, o ingênuo jovem confiou nas suas palavras e entregou-lhe o colar. 
                    Passados alguns dias, quando tudo que tinha se esgotou, pediu o colar , mas ela, como da primeira vez, jurou solenemente que tinha sido roubado. 
                    Diante dessa notícia o jovem entrou em desespero e disse-lhe:
                    - Eu deveria estar doido; como fui entregar-lhe o colar depois de ter perdido o anel? 
                    Mais uma vez saiu e foi à procura de sua mãe contando-lhe tudo. Ela, muito aflita, ouviu toda a história do filho e então lhe disse: 
                     - Oh meu querido filho, por que confiaste novamente nessa mulher? Vão pensar que és um maluco; já não tenho mais nada a lhe dar a não ser aquele tapete de tecido que seu pai deixou.  É tudo o que tenho e vou dá-lo a ti, mas se perderes não me procures mais. 
                    O filho recebeu o tapete e voltou novamente aos estudos. A prostituta mostrou-se muito alegre; e ele, desdobrando o tapete, disse-lhe: 
                     - Minha querida, meu pai legou-me este belo tapete de tecido árabe; vem sentar-te nele a meu lado. Ela aceitou o convite e o jovem, em segredo, desejou que fossem transportados para um lugar onde não houvesse mais ninguém. O talismã foi muito eficaz e transportou-os para uma floresta nos confins do mundo, onde não havia traço algum de gente. Depois de ter percebido o que havia ocorrido ela entrou em desespero, chorando inconsolavelmente. Mas o jovem não se importou com suas lágrimas e disse-lhe: 
                      - Se não me devolveres o anel e o colar eu a deixarei sozinha para ser devorada pelas bestas e feras que vivem aqui. Ela então prometeu-lhe que, tão logo pudesse, assim o faria.
                      Depois ela mostrou-se muito carinhosa e mais uma vez jurou que nunca o deixaria, pois o amava acima de qualquer coisa. O jovem, acreditando naquelas falsas promessas, contou-lhe toda a história do tapete que havia herdado de seu pai; depois, sentindo-se cansado, deitou-se sobre ele e adormeceu profundamente.
                     A mulher, vendo a oportunidade, retirou cautelosamente o tapete debaixo do seu corpo e, sentando-se sozinha sobre ele desejou voltar para à sua cidade, para onde foi imediatamente transportada.
                    O jovem príncipe lá ficou dormindo, sem saber dos perigos que corria. Quando acordou percebeu que tanto o tapete como sua amante haviam desaparecido e não se conteve, chorando desesperadamente.  Não sabia o que fazer nem para onde deveria ir. Então levantou-se e saiu caminhando por uma estrada que havia naquela floresta, chegando às margens de um grande e profundo rio. Para continuar sua caminhada deveria atravessá-lo; mas, ao tocar nas suas águas, percebeu que eram muito quentes e também amargas; seus pés estavam feridos, mas mesmo assim continuou caminhando por um atalho que havia junto às margens do rio. Durante a caminhada sentiu muita fome e resolveu procurar alguma planta comestível que houvesse por ali. De repente avistou uma frondosa árvore e dela pendiam apetitosos frutos; foi até ela, comeu alguns que o deixaram leproso, mas continuou sua caminhada. Depois de muito andar chegou a um outro rio e entrou nele para lavar a aliviar seus pés que imediatamente ficaram curados; avistou uma outra árvore com belos frutos e ao comê-los ficou curado da lepra. Levou consigo um pouco daquela água e dos frutos benfazejos e continuou sua caminhada.
                     Passados vários dias chegou a um velho castelo onde encontrou dois homens que lhe peguntaram: 
                    - Quem é o senhor e qual sua profissão? 
                    - Sou médico, respondeu. 
                    - Que sorte!, responderam eles; o nosso rei está muito doente, com lepra, e ninguém consegue curá-lo. Se o curar será muito bem recompensado. 
                    Ele antão prometeu que faria tudo o que estivesse ao seu alcance e em seguida foi conduzido até os aposentos do rei enfermo. Lá chegando deu-lhe imediatamente a fruta da segunda árvore, curando-o instantaneamente. Em seguida deu-lhe um banho com a segunda água e suas carnes e pele se regeneraram imediatamente.  Foi muito bem recompensado a ali ficou por alguns dias. Depois embarcou num navio com destino à sua terra natal. 
                   Chegando em sua cidade fez correr a notícia de que havia chegado um grande médico especialista na cura da lepra. 
                   A sua ex mulher havia se tornado muito rica fazendo uso do anel e colar que lhe roubou, mas estava muito doente e solicitou que lhe trouxessem o novo médico da cidade. Já haviam passados muitos anos e os dois estavam bem diferentes; ela não o reconheceu, mas foi imediatamente reconhecida pelo jovem príncipe que todos acreditavam ser um grande médico. 
                   Ao se aproximar da enferma foi logo dizendo que só os remédios não a curariam; era necessário que confessasse se arrependesse dos seus pecados, e que se tivesse roubado alguém deveria devolver todo o produto do roubo. 
                   A senhora, cuja doença se agravava a cada dia,  tinha muito medo de morrer e fez tudo o que o médico lhe mandou. Confessou ao seu ouvido: 
                   - Eu roubei os bens de uma pessoa que confiava em mim e agora vou morrer, mas se me salvar, prometo que nunca mais roubarei. 
                   Então o jovem príncipe e falso médico perguntou-lhe: 
                   - Minha senhora, onde estão guardados os talismãs? 
                   - Naquela mala, respondeu ela baixinho para que ninguém mais ouvisse, e entregou-lhe a chave que trazia pendurada ao pescoço. 
                   Assim o jovem príncipe recuperou todo o legado de seu pai e, logo em seguida, cuidou da senhora enferma. Esta ficou curada, mas continuou pobre como era antes de conhecê-lo. Em seguida o jovem príncipe foi à procura de sua mãe e contou-lhe tudo o que lhe ocorrera durante aquele tempo em que esteve ausente. Sua mãe ficou muito feliz com sua volta e disse-lhe: 
                   - Meu querido filho, a vida é cheia de armadilhas; precisas ficar sempre alerta para não ser levado por promessas de mentirosos. 
                   Depois de toda essa aventura, mãe e filho ainda viveram muitos anos e ambos acabaram seus dias em paz. 
Nicéas Romeo Zanchett