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quarta-feira, 1 de março de 2017

A GATA BORRALHEIRA - Adaptação de Nicéas Romeo Zanchett


UM POUCO DE HISTÓRIA
A mais antiga história da Gata Borralheira tem origem na China, cerca de 860 anos a.C.
Muitos foram os autores de sucesso que escreveram sua versão sobre a Gata Borralheira que virou Princesa. 
Em 1697 o escritor francês Chales Perrault, inspirado num conto italiano (La gatta cenerentola), escreveu a versão mais conhecida; depois dele os Irmãos Grimm também escreveram uma história semelhante. Como Cinderela esta pequena história tornou-se o um dos contos mais populares da humanidade.  Nesta a Cinderela sabe palavras mágicas, que as usa no imperativo, e assim consegue fazer seu pedido  se transformar em realidade. O final da história acontece com as irmãs malvadas ficando segas depois que  pombos lhes furam os olhos. 
A palavra borralheira é dada ao um local sujo, local onde se guardam lixo, cinzas e restos do forno de lenhas.

Analisando a história pelo olhar da psicologia podemos dizer que ela traduz o anseio natural de toda a jovem que quer ser reconhecida como especial e superior às demais. Este lado psicológico tem sido muito usado pelo cinema não apenas infantil, mas também aqueles que contam histórias de amor onde a mulher simples, humilde acaba sendo a preferida e amada.

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               Em tempos muito remotos a esposa de um homem muito rico estava à beira da morte. Preocupada com o futuro da filha chamou-a até seu leito e lhe disse: 
               - Querida filha, estou prestes a me despedir para ir ao encontro de Deus. Antes porém quero lhe dar o melhor conselho que imagino existir; - seja sempre boa e piedora que Deus a ajudará; lá do céu sempre a acompanharei e pedirei por você. 
               Em seguida morreu. 
               Boa e piedosa, a menina ia todos os dias ao túmulo da mãe.
               Passado um ano, seu pai apaixonou-se por uma linda senhora e casou-se novamente.
               A nova esposa levou consigo as duas filhas que eram muito lindas de rosto e corpo, mas feias de alma. Mal chegaram à nova casa começaram a atormentar a boa e piedosa enteada de sua mãe.
              - Você é uma pessoa horrorosa e nós não a queremos conosco; vá para a cozinha ajudar a criada, disseram elas.
              Em seguida foram ao seu quarto, abriram seu armário e se apossaram dos lindos vestidos que havia ganho de seus pais. Depois vestiram-na com o que havia de pior e também puseram-lhe um velho tamanco e mandaram que fosse para a cozinha trabalhar.
              A piedosa menina levantava-se muito cedo para lavar cozer e cozinhar. 
              As irmãs faziam-lhe todo o mal que podiam, sempre com as mais humilhantes palavras.
              Como havia sido expulsa de seu quarto, passava as noites sentada ao pé do fogão, pois nem cama tinha para deitar e descansar.  Como estava sempre suja de cinza puseram-lhe o nome de Gata borralheiro. 
              Certo dia seu pai foi a uma feira, mas antes de sair perguntou às suas enteadas: 
              - O que querem que lhes traga de presente? 
              - Os vestidos mais belos que encontrar, disse uma; 
              - As mais lindas e ricas jóias, disse a outra. 
              - E você minha querida filha, que queres que lhe traga? 
              - Paizinho, traze-me a primeira flor que encontrar no seu caminho de volta, respondeu-lhe. 
              O senhor foi então à feira e comprou lindas jóias e vestidos para as duas enteadas; na volta, ao passar por um bosque, lembrou-se do pedido da filha e colheu um raminho de rosa.
              Ao chegar em casa deu às enteadas o que haviam pedido e entregou o ramo de rosa para sua legítima filha. 
              Com aquele raminho nas mãos ela foi até o cemitério e enterrou-o junto ao túmulo de sua mãe. Tanto chorou que suas lágrimas irrigavam diariamente aquele raminho que logo se transformou numa bela roseira. 
              A Gata borralheira, sempre que podia, ia ver e admirar sua roseira que de tão grande se tornara uma verdadeira árvore. Notou que sempre que ela chegava vinha também um pequeno passarinho branco que lhe dava tudo o que ela pedia. 
              O rei daquele lugar mandou avisar e convidar a todos para a grande festa que daria a fim de que seu filho tivesse a oportunidade de escolher a mais bela das moças de seu reinado para ser sua esposa. 
              Quando as duas irmãs avarentas souberam da notícia ficaram enlouquecidas de felicidade e esperança. Chamaram a Gata borralheira e lhe disseram: 
              - Limpe muito bem nossos sapatos e penteie nossos cabelos que iremos a uma festa no palácio do rei. 
              Ouvindo isso a Gata borralheira começou a chorar e pediu à madrasta que a levasse também.
              - Está cheia de cinzas e poeira, disse-lhe a madrasta. Além disso como poderá dançar  se nem tem um par de sapatos? 
               Mas como ela insistia, a madrasta deu-lhe uma tarefa. Em seguida despejou um prato de lentilhas nas cinzas da lareira,  mandou que juntasse todas, uma a uma, separando as boas da ruins e disse: 
                - Se apanhar todas antes de duas horas poderá vir conosco. 
                A bondosa menina foi ao jardim e chamou seus amigos: 
                - Queridos pássaros, pombas, andorinhas, e todos os outros, por favor me ajudem; vamos separar as boas e por no prato as outras podem comer ou jogar fora. 
               Duas pombas brancas imediatamente apareceram na janela da cozinha; em seguida duas lindas andorinhas, e por fim uma grande quantidade de pássaros  voavam em volta da lareira. Não demorou muito e todos os grãos bons estavam no prato. Nem havia passado uma hora e a tarefa já estava cumprida. 
               A boa menina foi toda contente levar o prato à madrasta imaginando que esta a deixaria ir à festa.
               - Nada disso, Gata borralheira, não tem vestido e nem sabe dançar; certamente os outros convidados ririam de nós. 
                Mas vendo que a menina não parava de chorar, resolveu dar-lhe outra oportunidade. 
                - Se conseguir apanhar entre as cinzas dois pratos de lentilhas ao mesmo tempo eu a levarei à festa. 
                Pensando que ela jamais conseguiria, despejou dois pratos de lentilha nas cinzas e foi embora.
                A menina imediatamente correu até o jardim e chamou novamente seus amigos pássaros.
                Como da primeira vez entraram logo pela janela da cozinha duas pombas, duas andorinhas e uma grande quantidade de pássaros que esvoaçavam pela cozinha em volta da lareira. 
               Passado pouco mais de meia hora a tarefa já estava cumprida e as aves voaram para os céus. 
               Toda contente, a menina foi ter com a madrasta imaginando que agora ela cumpriria sua promessa, mas a madrasta lhe disse:
                - É inútil tentar, não pode vir conosco; iria nos envergonhar pois não sabes dançar e, além disso, nem tem uma roupa condizente com a pompa da festa que o rei irá dar. 
                Deu-lhe as costas e pôs-se a caminho do castelo com as duas filhas orgulhosas ricamente vestidas.
                Finalmente a Gata borralheira ficou sozinha em casa e então resolveu ir ao túmulo de sua mãe; sentou-se em baixo da roseira e começou a falar com o coração cheio de amor:
"Querida roseirinha 
Um vestido me vais dar
Que seja de ouro e prata
E lindo como o luar"
                Imediatamente um passarinho branco lhe trouxe um vestido de ouro e um par de sapatinhos bordados com prata. Em seguida ela vestiu-se, calçou os sapatinhos e foi para a festa. 
                  Nem a madrasta e nem a irmãs a conheceram. Estava deslumbrante e elas julgaram que seria alguma princesa estrangeira. Acharam-na muito linda com aquele vestido de ouro e maravilhosos sapatos; jamais poderiam imaginar que ela fosse a Gata borralheira que haviam deixado junto à lareira. 
                  Não demorou muito e o filho do rei veio ao seu encontro; pegou-a pela mão e começou a dançar com ela não deixando que mais ninguém a convidasse para ser seu par e quando outro rapaz se aproximava ele logo dizia: 
                  - Desculpe amigo, mas ela é meu par.
                  Dançaram até ao amanhecer e então a Gata borralheira lhe disse que deveria voltar para casa, mas o príncipe lhe disse: 
                  - Vou com você; preciso conhecê-la melhor. Mas ela o despistou e conseguiu fugir.
O príncipe foi então falar com seu pai, o poderoso rei, dizendo-lhe: 
                  - Meu bondoso pai, a donzela que me fascinou fugiu para o bosque e preciso encontrá-la. O rei mandou vários guardas do palácio para procurá-la, mas não conseguiram nem sinal da bela jovem que encantara o príncipe. 
                  Quando a malvada madrasta e suas filhas chegaram em casa tudo parecia normal. A Gata borralheira estava junto à lareira com um vestido velho e todo sujo de cinzas. A Gata borralheira tinha entrado rapidamente; estava muito cansada, pois havia corrido um longo trecho de chão pelo bosque e, ao passar pelo túmulo de sua mãe, trocara de roupa às pressas. 
                  No dia seguinte a festa continuou; seu pai, sua madrasta e a duas trapaceiras puseram-se a caminho do palácio para não chegarem atrasadas. A Gata borralheira correu para junto do túmulo de sua mãe, sentou-se em baixo da grande roseira e disse: 
"Querida roseirinha
Um vestido me vais dar
Que seja de ouro e prata
E tão lindo como o luar."
                 Imediatamente um pássaro desceu do céu e lhe deu um vestido mais lindo que o anterior e ricos sapatinhos  mais brilhantes que a luz do sol. Quando chegou à festa todos ficaram encantados com sua extraordinária beleza. 
                 O príncipe já estava aguardando sua chegada e logo veio ao seu encontro; tomou-a pela mão e juntos dançaram a noite toda. Quando alguém ousava convidá-la ele imediatamente dizia: 
                 - Desculpe amigo, mas ela é meu par. 
                 Ao amanhecer, a Gata borralheira quis retirar-se, mas o príncipe estava pronto para segui-la e descobrir onde morava. Ela fingiu que estava tudo bem e foi esconder-se no jardim onde havia uma grande árvore repleta mangas. Subiu na árvore e escondeu-se entre seus ramos. O príncipe tentou segui-la, mas ela o despistou e foi embora. 
                  Quando a madrasta e suas filhas chegaram em casa encontraram a Gata borralheira sentada junto à lareira como na noite anterior. Tinha feito o mesmo caminho passando pelo túmulo de sua mãe e trocado as lindas roupas pelo velho vestido sujo de cinzas. 
                 No terceiro dia de festa a gata borralheira esperou que todos saíssem e foi novamente sentar-se em baixo da roseira e disse: 
"Querida roseirinha
Um vestido me vais dar
Que seja de ouro e prata
E tão lindo como o luar."
                Mais uma vez o pássaro chegou com um vestido muito mais lindo que os dois anteriores e um par de sapatinhos de ouro. 
                 Quando apareceu na festa todos suspiraram assombrados com tanta beleza. O príncipe já a esperava e, como nas noites anteriores, dançaram até o amanhecer. Sempre que algum jovem se aproximava para convidá-la ele dizia: 
                 - Desculpe amigo, mas ela é meu par.
                 Ao amanhecer a Gata borralheira quis retirar-se às escondidas como nas noites anteriores. Mas o príncipe havia mandado  espalhar uma poderosa cola na escada e o sapatinho da bela jovem ficou fixado no primeiro degrau.  Ele não perdeu tempo e apanhou logo aquele lindo e pequenino sapatinho de ouro. 
                 No dia seguinte foi ter com o pai e disse-lhe: 
                 - Meu bondoso pai; já decidi como escolher aquela que será minha esposa; vou anadar por aí até encontrar uma jovem cujos pés caibam perfeitamente neste sapatinho. 
                  E logo em seguida montou seu cavalo e saiu andando por todos os lugares com aquele sapatinho de ouro. 
                  A notícia logo se espalhou e todas as jovens que encontrou tentaram calçar o sapatinho. É claro que todas faziam o maior esforço, pois queriam casar com o príncipe, mas nenhuma conseguia perque tinham pés muito grandes. Finalmente chegou à casa da Gata borralheira. 
                  As duas enteadas ficaram muito felizes e esperançosas porque tinham pés pequenos. 
                  A mais velha levou o sapato para o quarto para calçá-lo, mas foi impossível porque o polegar não cabia. A mãe, sempre ardilosa, entregou uma faca para a filha e lhe disse:
                  - Corta fora o dedo. Não lhe fará falta, pois sendo uma princesa nunca andará a pé 
                  A ambiciosa jovem concordou com a mãe e cortou o dedo; em seguida, com muito esforço,  conseguiu calçar o sapatinho de ouro e foi juntar-se ao filho do rei. Os dois montaram a cavalo e como noivos saíram cavalgando em direção ao palácio. Mas no caminho tiveram que passar pelo túmulo da mãe da Gata borralheira; ali estavam duas pombas que começaram e recitar: 
"Não sigas, príncipe amante; 
olha e repara um instante
que o sapatinho que essa tem 
para o seu pé não convém;
a tua noiva verdadeira 
está em casa junto à lareira."
                  Então o príncipe foi examinar seus pés e viu que corria sangue; montou com ela em seu cavalo e juntos chegaram à casa de sua mãe. Ele explicou que a outra filha deveria experimentar o sapato, pois aquela não era a verdadeira dona do sapatinho. Esta pegou logo o sapatinho e entrou no quarto para calçá-lo. A parte da frente entrava bem, mas o calcanhar era muito largo e não cabia de jeito nenhum. A mãe assistia a tudo e, ardilosa como sempre, mandou que a filha cortasse um pedaço do calcanhar, pois sendo uma princesa, nunca mais andaria a pé. 
                 A jovem obedeceu a mãe e cortou o calcanhar; pôs o pé dentro do sapatinho e foi ter com o príncipe. Sentia muita dor, mas conseguia dissimular. Em seguida, junto com o jovem príncipe, rumaram em direção ao palácio. 
                 Ao passarem junto ao túmulo lá estavam as duas pombas que novamente começaram a recitar: 
"Não sigas, príncipe amante; 
olha e repara um instante
que o sapatinho que essa tem
para o seu pé não convém; 
a tua noiva verdadeira 
está em casa junto à lareira. 
                  O príncipe desceu do cavalo, examinou os pés da jovem e viu que corria sangue. Imediatamente voltou para trás e devolveu a fingida noiva dizendo: 
                  - Também não é esta que eu procuro; por acaso tem outra filha, perguntou ao pai.
                  - Não, respondeu-lhe. Mas com minha primeira esposa tive uma filha que não não lhe deve servir, tanto que a chamamos de Gata borralheira.  Ela não é com certeza a noiva que procura. 
                  Apesar dos argumentos do pai, o príncipe insistiu em vê-la, mas a madrasta foi logo dizendo: 
                  - Não, não; ela está toda suja e não pode apresentar-se diante de uma pessoa tão importante como vossa majestade. 
                  Mas o príncipe não desistiu até que resolveram trazer a Gata borralheira. Esta foi primeiro lavar o rosto e as mãos e depois apresentou-se diante do príncipe que lhe entregou o sapatinho de ouro para provar. Sentou-se num banco de madeira, tirou o pezinho do pesado tamanco e sem a menor dificuldade calçou aquele lindo sapato. Foi quando finalmente se levantou que o príncipe viu seu rosto e logo reconheceu sua formosa princesa com quem tinha dançado e disse-lhe: 

                  - Esta é a minha verdadeira noiva!
                  A madrasta e as duas irmãs ficaram assombradas e pálidas de raiva; Mas ele montou seu cavalo com a Gata borralheira e partiu com ela para o palácio, onde seu pai o esperava. 
                  Quando passaram defronte ao túmulo lá estavam as duas pombas brancas sob a roseira e iniciaram seu recital: 
"Segue, príncipe, adiante
sem parar nenhum instante;
 já encontraste o pesinho 
a que serve o sapatinho." 
                   Após dizerem isto, os duas pombas brancas voaram e pousaram uma em cada ombro da Gata borralheira.
                   Passados alguns dias aconteceu uma grande festa para a celebração das bodas do jovem casal.
                   As duas falsas irmãs tentaram se aproximar da Gata borralheira e assim participarem felizes da sua vida. Quando foram para a igreja a mais velha tomou o lado direito e a mais nova o esquerdo, mas as duas pombas brancas que estavam nos ombros da Gata borralheira bicaram-nas nos dois olhos deixando-as cegas e assim castigando-as severamente pelas suas impiedosas maldades.
                  O jovem casal, príncipe e princesa, viveram felizes para sempre. 
Nicéas Romeo Zanchett 
               
        

sábado, 25 de fevereiro de 2017

A AVIDEZ DA RIQUEZA CONDUZ AO INFORTÚNIO



Por Nicéas Romeo Zanchett 
Inspirado em clássicos universais com fim moral.
                  Em tempos muito remotos, houve um velho carpinteiro que morava à beira do mar; era muito mau, avarento e cobiçoso. 
                  Passou a maior parte da vida juntando dinheiro que sempre guardava numa parede falsa ao lado de sua cama. Estava constantemente preocupado que alguém pudesse roubá-lo e então resolveu esconder sua fortuna dentro de um tronco de árvore que sustentava o teto de seu quarto. Achou que assim haveria menor probabilidade de alguém descobrir seu segredo. 
                 Numa tarde de verão começou chover intensamente e o mar tornou-se revolto. Isso não o preocupava porque sua fortuna estava bem escondida. 
                 Enquanto dormia o mar transbordou e inundou totalmente sua casa. O velho avarento teve de salvar sua vida e abandonou seu quarto correndo em busca de abrigo em local mais alto. 
                 Boa parte de sua casa foi demolida pela força da água e o tronco, que guardava sua fortuna, flutuou por longo tempo até chegar a uma pequena cidade onde morava um senhor dono de um pequeno hotel. 
                Ao amanhecer de um novo dia, veio o sol. O hoteleiro levantou-se cedo e foi até a praia que ficava em frente ao seu estabelecimento. Logo viu aquele tronco boiando entre as espumas que a maré batia na areia. 
                Inicialmente pensou tratar-se de um simples pedaço de madeira que alguém jogara ao mar. Retirou-o com todo o cuidado e o guardou. Era um homem muito honesto e preferiu não fazer nenhum uso até ter certeza absoluta de que ninguém o procuraria. 
                O tempo passou, chegou a primavera que era época de maior ocupação de seu hotel. Precisava de mais lenha para cozinhar alimentos, pois acabara de chegar um gruo de peregrinos.
                Resolveu então fazer uso daquele tronco de madeira cortando-o em pedaços. Pegou o machado e começo a cortá-lo ao meio. Mas, ao dar a terceira machadada percebeu que tratava-se um um pau oco; percebeu também que dentro dele alguma coisa fazia um barulho estranho que mais parecia um chocalho. 
                Qual não foi sua surpresa ao partir o tronco ao meio quando moedas de ouro rolaram pelo terreno. Ficou muito contente, mas como homem honesto e bondoso, logo imaginou que aquele tesouro devia ter um dono e por isso resolveu guardá-lo até descobrir o legítimo proprietário.
               O ambicioso carpinteiro não teve mais descanso desde o momento em que o mar levou todo o tesouro que tão bem guardou por toda a vida.  Quase enlouquecido caminhava por tudo quanto é lugar à procura de alguma notícia. Já cansado percebeu que ali havia um hotel onde poderia descansar para depois continuar sua busca. 
               Como já estava sem esperança resolveu contar ao velho hoteleiro a sua verdadeira história. O dono da hospedaria logo percebeu que aquele dinheiro era dele, mas resolveu guardar segredo até conhecê-lo melhor. 
               Cansado e com fome o avarento carpinteiro pediu que lhe service  alguma coisa para comer. O hoteleiro, atendendo seu pedido, serviu-lhe três bolos. O primeiro recheou com terra; o segundo com ossos de animais e o terceiro com um pouco daquelas moedas de ouro. 
               - Meu caro amigo - disse o hoteleiro - vamos comer três bolos feitos com a melhor carne da casa. Escolhe o que desejares. O carpinteiro, que sempre queria levar vantagem, escolheu o bolo mais pesado e disse logo: 
               - Minha fome é grande e provavelmente vou ter que ficar com aquele apontando para o que estava recheado de ossos. O senhor que não precisa de muito pode ficar com o terceiro. 
               - Para mim está bem - disse-lhe o hoteleiro. Em seguida chamou alguns mendigos que sempre vinham pedir restos de comida e lhes presenteou com aquele bolo. O avarento carpinteiro disse-lhe: 
               - Se eu soubesse que o senhor não o queria teria ficado com ele para mim. 
               O hoteleiro então partiu o bolo dizendo: 
               - Aqui está uma pequena parte do seu tesouro, seu velho avarento. Percebo que Deus não quer que seja seu e por isso o fez escolher os outros dois bolos recheados com terra e ossos. Então distribuiu pedaços de bolo e as moedas de ouro entre os pobres; em seguida expulsou o velho avarento que saiu esbravejando pragas pelo caminho, cheio de raiva. 
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CONCLUSÃO FINAL
             O carpinteiro, aqui representado, é qualquer homem avarento;
             O tronco da árvore significa o coração humano cheio das riquezas desta vida;
             O hospedeiro é todo aquele que tem bondade e amor no coração para abrigar a todos;
             O bolo de terra é o mundo em que vivemos temporariamente; 
              O bolo de ossos representa os seres, bons ou maus,  que viveram e já morreram sem levar nada; 
              O bolo de ouro representa a bondade que exite em muitas pessoas.
Nicéas Romeo Zanchett 


APROVEITE E CONHEÇA


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

O PATINHO FEIO e A VIDA DE CHRISTIAN ANDERSEN

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Adaptação de Nicéas Romeo Zanchett 
A história real do autor de "O Patinho Feio"
                    Hans Christian Andersen nasceu em Odense, na Dinamarca, a 2 de abril de 1805. Seu pai era sapateiro de condição humilde, mas tinha grandiosos sonhos. Alistou-se como soldado para lutar ma guerra napoleônica e um ano mais tarde voltou doente, morrendo logo em seguida. A família ficou na miséria.
                    A mãe de Christian casou-se novamente e o abandonou, tendo ele de virar-se sozinho pela sobrevivência. 
                    Christian era muito sensível, arredio e tinha dificuldade de adaptar-se a qualquer ofício. Gostava de estudar, mas teve de abandonar seus estudos por falta de recursos. 
                    Aos 14 anos de idade Andersen era um rapazinho solitário, assustado com o mundo em que vivia e sem nenhuma ideia de que rumo deveria tomar. Era um verdadeiro "Patinho Feio". 
                   Nessa época, uma companhia teatral, que percorria o interior da Dinamarca, apresentou-se em Odense. Christian Andersen não perdeu um único espetáculo da temporada. Quando a companhia foi embora Andersen já tinha tomado a sua decisão: ia embora também. 
                  Com alguns trocados no bolso e uma carta de recomendação tomou o caminho de Copenhague. A capital dinamarquesa era bem diferente do seu mundo e de seus sonhos. Por diversas vezes tentou aproximação com o mundo teatral, mas não teve êxito. Os atores e empresários que procurou não simpatizavam com sua aparência tímida e desajeitada. O próprio diretor do Teatro Geral disse-lhe que não havia oportunidade para um ator alto, magro e inexperiente como ele. 
                  Em vão, tentou os estudos de balé, mas como bailarino revelou-se uma total negação. Sua lista de tentativas, fracassos e decepções era interminável, mas Andersen não deixou que abatessem seu ânimo. 
                  Sentia-se cada vez mais atraído pelo teatro e insistia em escrever peças. Quando tudo parecia perdido, duas de suas peças chegaram às mãos de Jonas Collin, que era conselheiro do Estado. Finalmente alguém demonstrou interesse e lhe deu uma bolsa de estudos. 
                  Os próximos seis anos seguinte, que foram os mais estáveis de sua vida, passou como estudante na escola de Slagelse. Mesmo ali sentia-se constrangido entre os colegas que eram bem mais jovens que ele. 
                 Apesar do seu  mal estar junto aos colegas, dedicava-se com muito empenho aos estudos. Ao deixar a escola já tinha 22 anos. 
                Mesmo com algum estudo a vida continuava difícil. A crise financeira se aprofundava, mas ele não desistia. Voltou toda a sua energia para a literatura escrevendo algumas histórias infantis, baseadas no folclore dinamarquês. Pela primeira vez em sua vida surgia uma luz no fim do túnel: seus contos fizeram sucesso. 
                Foi neste contesto de adversidade extrema que ele parodiou sua própria vida escrevendo "O Patinho Feio". 
ADAPTAÇÃO DA HISTÓRIA ORIGINAL

               " Um vento frio e impiedoso soprava por toda a parte, derrubando as folhas das arvores  e tangendo as nuvens escuras, carregadas de neve e granizo. Chegava o outono. Tempo cruel para um patinho desprotegido. 
               Certo dia passou pelo céu um bando de grandes aves de pescoço longo, gracioso e plumagem muito branca. Voavam tão alto que dava vertigem de olhá-las. Eram cisnes que rumavam para o sul, em busca de terras mais quentes, deixando para trás a melancolia do inverno que se aproximava. 
              O patinho rejeitado não sabia que aves eram e nem para onde iam. Mas nunca vira nada tão lindo e sentiu por elas uma admiração sem limites. à noite, sonhou fazer parte do bando e ser igual àquelas criaturas fortes e tranquilas.

               O inverno veio rigoroso e demorou a passar. O patinho sofreu terrivelmente. Abrigado entre os juncos de uma lagoa. Durante longos meses ele aguardou o retorno do sol. Por fim, um dia a cotovia cantou e o sol se mostrou por entre as nuvens. Era a primavera chegando. 
               Aliviado, o patinho bateu as asas e notou que elas se moviam com energia e o transportaram facilmente sobre o juncal. Mas a alegria da descoberta terminou de repente, quando surgiram do juncal três formosos cisnes, com sua majestosa plumagem eriçada. A beleza daquelas figuras fez voltar a melancolia do enjeitado. Tinha vontade de juntar-se ao bando, mas não conseguia controlar o medo. Achava que sua feiura os ofenderia. Entretanto, acabou se decidindo; preferia morrer atacado por eles do que viver passando fome durante o inverno, maltratado pelos outros patos, bicado pelas galinha e enxotado pela moça que cuidava do galinheiro.
              Reunindo toda a sua coragem, voou até a água e nadou em direção aos três desconhecidos. Assim que o viram os cisnes vieram ao seu encontro batendo as asas. Resignado à morte, ele esperou de cabeça baixa. Então viu refletida na água a sua própria imagem. Quase não acreditou na visão; não era mais um bicho mirrado, feio e sem graça. Tornara-se grande e muito bonito. Deixara de ser um patinho e tornara-se um belo cisne.  
                 Embora adulto, Andersen encarava o mundo pelo mesmo ângulo que as crianças, e justamente por isso se exprimia numa linguagem ao mesmo tempo atraente e acessível ao espírito infantil. A riqueza de sua imaginação conseguia dar aspectos surpreendente às coisas mais corriqueiras e permitia-lhe criar enredos encantadores a partir de um botão, uma colher ou um soldadinho de chumbo.  
                 Seus contos se divulgaram, dando-lhe finalmente a fama que ela procurara em vão durante tanto tempo. 
                 Tendo começado do nada, Christian Andersen transformara-se uma personalidade aclamada em toda a Europa. Seus contos percorriam o mundo. Quando regressou ao seu país, vinha carregado de glória e sua chegada foi festejada pela Dinamarca inteira. 
                 Só após toda uma vida de luta contra a solidão, o frio e a fome, Andersen se viu cercado de amigos. E foi entre eles que morreu em 1875, quando tinha setenta anos de idade. 
                 A vida de Christian Andersen é um exemplo de perseverança e dedicação a uma causa de amor à arte e a literatura. Ele nos mostrou que para sermos entendidos precisamos falar a linguagem dos nossos ouvintes. 
                Pense nisto, nunca desista e deixe que o tempo mostre ao mundo o cisne que existe em você. 
Nicéas Romeo Zanchett 
LEIA TAMBÉM > AS FÁBULAS DE ESOPO

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

AS VIAGENS DE GULlIVER - LEIS ABSURDAS E BRIGAS INÚTEIS

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Adaptação : Nicéas Romeo Zanchett
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                  Tudo começa com a viagem do Capitão Gulliver que acabou em naufrágio. Logo apos ele foi arrastado para uma ilha chamada Lilliput, cujos habitantes eram extremamente pequenos e estavam constantemente em guerra por futilidades. 
                 Foi baseada nessas futilidades dos lilliputianos que o autor, Jonathan Swift demonstrou a realidade inglesa e francesa da época. 
                 Com o naufrágio, o Capitão Gulliver, capturado pelos lilliputianos, foi obrigado a fazer trabalhos forçados para seus minúsculos, mas ferozes carcereiros. O que não o impedia de manter conversações amenas com o rei daquele povo pequenino e obstinado. 
                 Depois de alguns trabalhos foi obrigado a se engajar na luta armada da guerra que acontecia entre os dois povos lilliputianos, governados por pequenos reis que se trucidavam a vinte séculos. Apesar de pequeninos no tamanho, os guerreiros de cada exército eram cruéis, matavam a sangue frio, não respeitavam nenhuma daquelas leis que, mesmo nas piores contendas, presidiam os fatos bélicos. 
                 Uma tarde, enquanto descansava do árduo trabalho que teve para empurrar toda a esquadra, Gulliver deitou-se num canto para dormir. Não conseguiu adormecer pois tinha à sua frente centenas de anõezinhos guerreiros se matando, velhos, crianças e mulheres estripados, uma imagem torturante. Então Gulliver foi pedir ao rei que parassem com aquela besteira. "-Não podemos parar," - disse o rei -"a nossa guerra é secular e só poderá ter fim quando um povo destruir o outro.". Então Gulliver quis saber do rei quais as razões daquela guerra que durava tantos séculos. O rei explicou: -"O meu povo, todas as manhãs, come ovos cozidos e os quebra pela parte de cima. O outro povo também come ovos cozidos todos os dias, mas quebra pela parte de baixo. Ora, isso é um insulto, um crime! A vinte séculos que lutamos para castigar este agravo nefando!"
                  Diante  da justa explicação, Gulliver teve de admitir que havia um motivo, que embora fosse banal para ele, era importante para homens daquele tamanho. Ja ia se retirando da presença do rei  quando lhe veio uma nova pergunta à cabeça: - Majestade, se o problema é apenas quebrar os ovos pela parte de baixo ou de cima, porque não fazem uma lei regulamentando definitivamente o assunto? - "Mas a lei existe e está em vigor à séculos! Faz parte da nossa Constituição! É justamente porque nosso inimigo não respeita a Constituição que vivemos em guerra!". 
                 - E o que diz a lei? - perguntou Gulliver. 
                 Dando ênfase a cada silaba, o rei citou o trecho do Dispositivo Constitucional número 1 que vigorava e era desrespeitado à vinte séculos. - "Os o-vos-de-vem ser que-bra-dos pe-lo la-do certo! Essa é a lei, o Dispositivo maior de nossa Constituição. Todas as manhãs os ovos devem ser quebrados pelo lado certo e não pelo errado. Há alguma dúvida sobre a necessidade e justiça de nossa guerra?"
                 Para aqueles anõezinhos Gulliver não passava de um desmiolado gigante, incapaz de entender o que é vergonha, moral, ética e compostura. 
MORAL DA HISTÓRIA
            As mesmas coisas podem parecer sem importância para alguns, mas é importante para outros; depende do ponto de vista de cada um. Por essa razão é importante saber ouvir e respeitar as opiniões dos seus semelhantes. 
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NOTA FINAL: Em nome de movimentos religiosos, ideológicos e democráticos, muitas leis absurdas são criadas; algumas respeitadas, mas inúteis e até incentivadoras de violência entre os povos. O pensamento de duas pessoas já é um universo de diferenças. Imaginem quando se cria leis para diferenciar seres da raça humana. Não é é a cor, a crença religiosa ou a escala social que deve servir de parâmetro para classificar os seres humanos. 
               As divergências políticas ou religiosas são democráticas e não devem gerar ódio. Mas muitos políticos populistas e fanáticos, em seus discursos inflamados para angariar apoio, votos e poder, jogam pobres contra ricos, crentes contra crentes e negros contra brancos. Isso é lamentável. 
               O artigo quinto da Constituição brasileira diz que todos somos iguais perante a lei; será que somos? - Pense nisso! 
Nicéas Romeo Zanchett 

                      


sábado, 17 de dezembro de 2016

A HISTÓRIA DE ÁNDROCLES E O LEÃO FERIDO



Adaptação de Nicéas Romeo Zanchett 
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                  Todos já ouviram falar do Coliseu romano, onde as feras atacavam e despedaçavam
pessoas ali jogadas para o prazer da multidão sedenta de sangue e principalmente dos imperadores e seus amigos e convidados. 
                 Este pequeno conto popular reapareceu na Idade Média como "O pastor e o Leão"; desta vez atribuído a Esopo por sua forma e também pela sua moral de reciprocidade e misericórdia.  E realmente é bem parecido com a fábula O leão e o rato.
A primeira narração clássica da história é encontrada no livro quinto de (Noctes Atticae) "Noites Áticas", escrito no século II. 
Segundo o autor Aulo Gélio, em seu livro (AEgyptiacorum) "Maravilhas do Egito" esta história teria sido contada por Apião que alegou te-la testemunhado pessoalmente. 
Nicéas Romeo Zanchett 


ÁNDROCLES E O LEÃO FERIDO 
                Ándrocles era um pobre escravo que pertencia a um ex-cônsul romano, administrador de uma grande parte da África. Segundo conta a história ele sofria muito sob o domínio de seu cruel dono e fugiu para uma floresta na tentativa de chegar à costa marítima e então voltar para Roma. 
                Em sua tentativa não mediu esforços pois sabia que se fosse preso novamente sua morte seria inevitável. Pacientemente esperou uma noite escura, sem lua e fugiu. Atravessou a cidade e andou  pelos campos tentando chegar a uma floresta, onde teria mais condições de se esconder. Continuou caminhando, sempre pensando em chegar à costa marítima, mas sem rumo certo acabou penetrando no solitário deserto do interior daquele imenso país.  Já era noite e estava muito cansado, então resolveu repousar ali mesmo.
                No dia seguinte, ao acordar, Ándrocles se deu conta de que havia dormido no covil de um enorme leão. Logo percebeu que não tinha como sair daquela situação, pois a leão estava impedindo sua passagem. Paralisado e horrorizado sentou-se e pacientemente esperou pelo momento em que a fera o devoraria. Mas, para sua surpresa, o animal não fazia nenhum movimento em sua direção.
                 Imaginou que o leão deveria estar sem fome e aguardando algum outro momento para  saciar-se. Foi então que percebeu que a fera choramingava muito e lambia uma das patas dianteira de onde escorria sangue. Ándrocles esqueceu e terror que sentia e, percebendo o sofrimento do animal, aproximou-se lentamente. 
                 O leão continuou inerte e levantou a pata como que a pedir auxílio. Ándrocles viu que naquela pata havia um grande espinho, que já lhe produzira uma perigosa inflamação. Num rápido movimento extraiu o espinho, deteve a inflamação e estancou o sangue.
                  Aliviado de sua dor, o agradecido leão saiu da caverna e em poucos minutos voltou com um coelho morto e o depositou aos pés de Ándrocles.
                  Depois de assar e comer o coelho, sentiu-se mais confiante; o leão deu sinal de que iria sair novamente e, como se fosse um amigo, o convidava a segui-lo. Não demorou muito e os dois chegaram a um local onde havia muita água fresca. 
                  Por três anos, os dois amigos viveram e caçaram juntos. Durante a noite o leão sempre dormia ao seu lado, movimentando o rabo,  como se fosse um cão que se deita aos pés do seu dono quando está feliz. 

                  O desejo de voltar a Roma sempre esteve em sua memória. Estava feliz ao lado do amigo leão, mas sentia falta de seus semelhantes. Depois de muito pensar deixou finalmente a caverna.  Foi logo preso por soldados patrulheiros e mandado de volta para Roma como escravo fugitivo.  
                  Os antigos romanos eram extremamente cruéis com escravos fugitivos, e Ándrocles foi condenado a ser despedaçado pelas feras do Coliseu no primeiro dia de festa. 
                  A notícia correu a cidade e uma grande multidão dirigiu-se ao local para assistir ao triste espetáculo que sempre contava com a presença do imperador rodeado por seus senadores. 
                  Começada a festa, deram uma lança a Ándrocles e o puseram na arena.  Todos sabiam que, mesmo com uma lança,  ele não teria a menor chance de vencer aquela fera e sobreviver. 
                  Os soldados haviam capturado um grande leão que fora mantido por vários dias sem alimento para torná-lo mais agressivo e feroz. Ele foi escolhido para enfrentar o pobre escravo. 
                  Quando o leão esfomeado foi finalmente solto na arena Ándrocles apavorado deixou cair a lança das mãos enquanto o animal dirigia-se velozmente em sua direção. 

                  Para surpresa de todos os presentes, em vez de o atacar e destroçá-lo, o leão agitou amigavelmente a cauda e lambeu-lhe as mãos. Foi só então e Ándrocles percebeu que aquele era seu amigo de caverna; acariciou-o, inclinou-se sobre sua cabeça e chorou. 
                  A multidão ficou maravilhada com aquela prodigiosa cena e o imperador, sem entender nada, mandou que trouxessem o escravo para lhe explicar o ocorrido. 
                  Ándrocles contou-lhe então a sua história fazendo uso de toda sua sinceridade. O imperador ficou tão impressionado que resolveu devolver-lhe a liberdade; além disso doou-lhe o leão e uma boa soma em dinheiro. 
                  E foi assim que Ándrocles ficou conhecido a estimado por todos que o aplaudiam quando passeava pelas ruas de Roma com seu companheiro fiel. 
Nicéas Romeo Zanchett - 

domingo, 30 de agosto de 2015

O ESPELHO DO JAPONÊS


Um conto japonês
 Por Nicéas Romeo Zanchett 
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              Numa pequena aldeia japonesa vivia um casal que muito se amava e estavam sempre felizes. 
              Todos os dias o marido  saía muito cedo para trabalho caminhando pela rua onde poucas pessoas encontrava. 
              Tudo corria às mil maravilhas até que num certo dia, quando andava pensativo e olhando para o chão, encontrou um pequeno espelho de bolso. Imediatamente abaixou-se e o apanhou. Qual não foi seu espanto quando ali viu a foto do seu velho pai já falecido. Depois de muito olhar e matar a saudade embrulhou aquele pequeno tesouro num lenço e o guardou no bolso para que ninguém mais o vice. 
              A noite, ao voltar para casa, tratou de esconder seu precioso retrato. Escolheu um local onde ninguém imaginaria encontrar algo: atras de um armário antigo que havia na cozinha. 
              Todos os dias, antes de sair e quando chegava do trabalho, dava um jeito de ver a fotografia sem que sua mulher percebesse. 
               Sua mulher já andava desconfiada com alguns novos hábitos do marido, mas nada falou. Até que numa noite ficou espionando a chegada do fiel companheiro. Como sempre, ele chegava e ia ver a fotografia do seu falecido pai. Dessa forma ela descobriu que ali havia um segredo. 
              Como todos sabem não pode haver segredo entre marido e mulher japonesa. Todos sabem também que os japoneses são fisionomicamente muito semelhantes e isso muitas vezes causa confusão de identidade.
               Ela esperou o marido dormir e foi ver o que havia de tão importante atrás daquele armário. Ao olhar o espelho seu susto foi imediato; seu marido tinha outra mulher e aquela era a fotografia que provava tal fato. 
                Durante a noite ela não conseguiu dormir e logo pela manhã interpelou o marido; 
                - Então você anda me traindo com outra! e não adianta negar porque tenho a prova.
                - Como pode pensar isto? você é a única em minha vida e sabe muito bem disso. 
                - Mentiroso! Traidor! aqui está a prova; uma foto dela que encontrei atrás do armário. 
                - Calma mulher; esta foto é do meu falecido pai.
                - Como pode ser tão cínico? 
                E a discussão não tinha fim. 

                Naquele momento, por ali passava um velho monge que todas as manhãs andava pela rua meditando e orando. Diante de tão feroz discussão, resolveu intervir para apaziguar o casal. Aproximou-se   e da porta perguntou o que estava acontecendo para tal discussão. 
                A mulher, ainda cheia de raiva, explicou:
                - Meu marido está me traindo com outra; encontrei uma foto dela que ele mantinha escondida atrás do armário. 
                - Deixe-me ver, disse o velho monge. E apanhou o pequeno espelho.
                - Ora, minha senhora, não é nada do que está pensando; Esta foto é do meu irmão, que também era monge e morreu no mar, durante uma tempestade, quando pescava. Esta foto lhe pertencia e deve ser levada ao local onde ele faleceu para que ele finalmente descanse em paz. E foi embora levando a foto que depois atirou ao mar. 
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MORAL DA HISTÓRIA
Às vezes julgamos pelas aparências e não aceitamos explicações. É preciso ter calma e sempre ouvir os dos lado da história para juntos chegar a um acordo. 
Nicéas Romeo Zanchett 

domingo, 12 de julho de 2015

PARÁBOLA DO TALMUD SOBRE A DEMOCRACIA

Embora não pratique nenhuma religião, costumo estudar todas aquelas que procuram transmitir bons ensinamentos com princípios voltados para o bem da humanidade, do amor ao próximo, à natureza e aos animais.
Foi nos meus estudos sobre o Talmud que me deparei com uma interessante fábula sobre a democracia. Ela é bem elucidativa para o momento do Brasil que está mergulhado na corrupção política que desemprega e agrava a fome dos menos favorecidos. 
Nicéas Romeo Zanchett 
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PARÁBOLA CONTRA A DEMOCRACIA. 
                    Conta-se no Talmud que um velho e sábio rabino chamado Josué afirmava que enquanto as baixas camadas se submeterem à direção das altas camadas da sociedade tudo irá bem. As últimas decretam, e Deus confirma. Dessa forma resulta a prosperidade do Estado. Mas quando as altas camadas, por motivos corruptos ou falta de firmeza, se submetem, ou são influenciadas pelas opiniões das camadas sociais com pouco conhecimento administrativo, é certo caírem juntas; e a destruição do Estado será inevitável. Para ilustrar seu pensamento relatou a fábula da cauda e da cabeça da serpente. 
                    Por muito tempo, a cauda da serpente tinha seguido a cabeça, e tudo estava bem. Um dia começou a estar descontente com este arranjo da natureza, e dirigindo-se nestes termos à cabeça: 
                    - Há muito tempo que observo com indignação o teu injusto procedimento. Em todas as nossas viagens, és tu que tomas a dianteira, enquanto eu, como um criado servil, sou obrigado a seguir-te. És sempre a primeira a aparecer em toda a parte e eu, como um miserável escravo, tenho que andar atrás.  Isto é justo? Não sou eu um membro do mesmo corpo? Porque não poderei dirigi-lo tão bem como tu? 
                    - Tu, exclamou a cabeça, tu, rabo imbecil queres dirigir o corpo? Não tens olhos para ver o perigo, nem ouvidos para te avisarem dele, nem cérebro para o evitar. Não entendes que é para tua vantagem que eu dirijo e o guio pelo melhor caminho? 
                   -  Para minha vantagem, não é verdade, disse a cauda. Essa é a mesma linguagem de todos os usurpadores. Pretendem reger para o bem dos seus escravos; mas não me submeterei mais tempo a semelhante estado de coisas. Insisto que a partir de agora devo tomar a dianteira.  
                   - Pois bem, replicou a cabeça, já que se diz tão competente, que assim seja; mas depois não diga que não o avisei dos perigos. Portanto a partir de agora guia tu e veremos.
                   A cauda regozijou-se e tomou a dianteira. A primeira façanha foi arrastar o corpo para uma fossa de lodo. A situação não era das mais agradáveis. A cauda lutou muito andando sem rumo apalpando os obstáculos que não conseguia ver. Com grande esforço conseguiu sair da lama; mas o corpo estava tão coberto de imundice que nem parecia pertencer à mesma criatura. A façanha seguinte foi enroscar-se sobre cipós e espinhos selvagens. A dor foi intensa; o corpo inteiro ficou ferido gravemente. Aqui teria sido o fim de tudo se a cabeça não tivesse vindo a seu reboque; mostrou-lhe então a melhor maneira de sair daquela situação e assim foram salvos. Mas a cauda não se conformou com seus próprios erros e insistiu em continuar administrando a  dianteira. Continuou a marchar; e quis o acaso que entrasse numa fornalha acessa à mais de mil graus. Em questão de segundos começou a sentir os efeitos do calor que ameaçava destruí-lo em poucos minutos. O corpo inteiro ficou congestionado; foi um lance terrível. Mais uma vez a cabeça veio em seu auxilio na tentativa de salvar a todos. Mas já era bastante tarde e a cauda havia sido consumida pelo fogo. Apesar dos esforços da cabeça, o fogo continuava implacável destruindo rapidamente o resto do corpo. Portanto a cabeça também foi destruída.
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MORAL DA HISTÓRIA : A destruição da própria cabeça foi permitir ser guiada pela cauda. Esse será seguramente o destino das altas camadas se se permitirem serem dominadas pela vontade de políticos inexperientes e populistas. 
NOTA FINAL: O Brasil está vivenciando essa mesma situação por ter entregue seu destino nas mãos de políticos corruptos, populistas, desonestos e incompetentes. 
Nicéas Romeo Zanchett 
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