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sábado, 17 de dezembro de 2016

A HISTÓRIA DE ÁNDROCLES E O LEÃO FERIDO



Adaptação de Nicéas Romeo Zanchett 
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                  Todos já ouviram falar do Coliseu romano, onde as feras atacavam e despedaçavam
pessoas ali jogadas para o prazer da multidão sedenta de sangue e principalmente dos imperadores e seus amigos e convidados. 
                 Este pequeno conto popular reapareceu na Idade Média como "O pastor e o Leão"; desta vez atribuído a Esopo por sua forma e também pela sua moral de reciprocidade e misericórdia.  E realmente é bem parecido com a fábula O leão e o rato.
A primeira narração clássica da história é encontrada no livro quinto de (Noctes Atticae) "Noites Áticas", escrito no século II. 
Segundo o autor Aulo Gélio, em seu livro (AEgyptiacorum) "Maravilhas do Egito" esta história teria sido contada por Apião que alegou te-la testemunhado pessoalmente. 
Nicéas Romeo Zanchett 


ÁNDROCLES E O LEÃO FERIDO 
                Ándrocles era um pobre escravo que pertencia a um ex-cônsul romano, administrador de uma grande parte da África. Segundo conta a história ele sofria muito sob o domínio de seu cruel dono e fugiu para uma floresta na tentativa de chegar à costa marítima e então voltar para Roma. 
                Em sua tentativa não mediu esforços pois sabia que se fosse preso novamente sua morte seria inevitável. Pacientemente esperou uma noite escura, sem lua e fugiu. Atravessou a cidade e andou  pelos campos tentando chegar a uma floresta, onde teria mais condições de se esconder. Continuou caminhando, sempre pensando em chegar à costa marítima, mas sem rumo certo acabou penetrando no solitário deserto do interior daquele imenso país.  Já era noite e estava muito cansado, então resolveu repousar ali mesmo.
                No dia seguinte, ao acordar, Ándrocles se deu conta de que havia dormido no covil de um enorme leão. Logo percebeu que não tinha como sair daquela situação, pois a leão estava impedindo sua passagem. Paralisado e horrorizado sentou-se e pacientemente esperou pelo momento em que a fera o devoraria. Mas, para sua surpresa, o animal não fazia nenhum movimento em sua direção.
                 Imaginou que o leão deveria estar sem fome e aguardando algum outro momento para  saciar-se. Foi então que percebeu que a fera choramingava muito e lambia uma das patas dianteira de onde escorria sangue. Ándrocles esqueceu e terror que sentia e, percebendo o sofrimento do animal, aproximou-se lentamente. 
                 O leão continuou inerte e levantou a pata como que a pedir auxílio. Ándrocles viu que naquela pata havia um grande espinho, que já lhe produzira uma perigosa inflamação. Num rápido movimento extraiu o espinho, deteve a inflamação e estancou o sangue.
                  Aliviado de sua dor, o agradecido leão saiu da caverna e em poucos minutos voltou com um coelho morto e o depositou aos pés de Ándrocles.
                  Depois de assar e comer o coelho, sentiu-se mais confiante; o leão deu sinal de que iria sair novamente e, como se fosse um amigo, o convidava a segui-lo. Não demorou muito e os dois chegaram a um local onde havia muita água fresca. 
                  Por três anos, os dois amigos viveram e caçaram juntos. Durante a noite o leão sempre dormia ao seu lado, movimentando o rabo,  como se fosse um cão que se deita aos pés do seu dono quando está feliz. 

                  O desejo de voltar a Roma sempre esteve em sua memória. Estava feliz ao lado do amigo leão, mas sentia falta de seus semelhantes. Depois de muito pensar deixou finalmente a caverna.  Foi logo preso por soldados patrulheiros e mandado de volta para Roma como escravo fugitivo.  
                  Os antigos romanos eram extremamente cruéis com escravos fugitivos, e Ándrocles foi condenado a ser despedaçado pelas feras do Coliseu no primeiro dia de festa. 
                  A notícia correu a cidade e uma grande multidão dirigiu-se ao local para assistir ao triste espetáculo que sempre contava com a presença do imperador rodeado por seus senadores. 
                  Começada a festa, deram uma lança a Ándrocles e o puseram na arena.  Todos sabiam que, mesmo com uma lança,  ele não teria a menor chance de vencer aquela fera e sobreviver. 
                  Os soldados haviam capturado um grande leão que fora mantido por vários dias sem alimento para torná-lo mais agressivo e feroz. Ele foi escolhido para enfrentar o pobre escravo. 
                  Quando o leão esfomeado foi finalmente solto na arena Ándrocles apavorado deixou cair a lança das mãos enquanto o animal dirigia-se velozmente em sua direção. 

                  Para surpresa de todos os presentes, em vez de o atacar e destroçá-lo, o leão agitou amigavelmente a cauda e lambeu-lhe as mãos. Foi só então e Ándrocles percebeu que aquele era seu amigo de caverna; acariciou-o, inclinou-se sobre sua cabeça e chorou. 
                  A multidão ficou maravilhada com aquela prodigiosa cena e o imperador, sem entender nada, mandou que trouxessem o escravo para lhe explicar o ocorrido. 
                  Ándrocles contou-lhe então a sua história fazendo uso de toda sua sinceridade. O imperador ficou tão impressionado que resolveu devolver-lhe a liberdade; além disso doou-lhe o leão e uma boa soma em dinheiro. 
                  E foi assim que Ándrocles ficou conhecido a estimado por todos que o aplaudiam quando passeava pelas ruas de Roma com seu companheiro fiel. 
Nicéas Romeo Zanchett - 

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