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quarta-feira, 1 de março de 2017

A GATA BORRALHEIRA - Adaptação de Nicéas Romeo Zanchett


UM POUCO DE HISTÓRIA
A mais antiga história da Gata Borralheira tem origem na China, cerca de 860 anos a.C.
Muitos foram os autores de sucesso que escreveram sua versão sobre a Gata Borralheira que virou Princesa. 
Em 1697 o escritor francês Chales Perrault, inspirado num conto italiano (La gatta cenerentola), escreveu a versão mais conhecida; depois dele os Irmãos Grimm também escreveram uma história semelhante. Como Cinderela esta pequena história tornou-se o um dos contos mais populares da humanidade.  Nesta a Cinderela sabe palavras mágicas, que as usa no imperativo, e assim consegue fazer seu pedido  se transformar em realidade. O final da história acontece com as irmãs malvadas ficando segas depois que  pombos lhes furam os olhos. 
A palavra borralheira é dada ao um local sujo, local onde se guardam lixo, cinzas e restos do forno de lenhas.

Analisando a história pelo olhar da psicologia podemos dizer que ela traduz o anseio natural de toda a jovem que quer ser reconhecida como especial e superior às demais. Este lado psicológico tem sido muito usado pelo cinema não apenas infantil, mas também aqueles que contam histórias de amor onde a mulher simples, humilde acaba sendo a preferida e amada.

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               Em tempos muito remotos a esposa de um homem muito rico estava à beira da morte. Preocupada com o futuro da filha chamou-a até seu leito e lhe disse: 
               - Querida filha, estou prestes a me despedir para ir ao encontro de Deus. Antes porém quero lhe dar o melhor conselho que imagino existir; - seja sempre boa e piedora que Deus a ajudará; lá do céu sempre a acompanharei e pedirei por você. 
               Em seguida morreu. 
               Boa e piedosa, a menina ia todos os dias ao túmulo da mãe.
               Passado um ano, seu pai apaixonou-se por uma linda senhora e casou-se novamente.
               A nova esposa levou consigo as duas filhas que eram muito lindas de rosto e corpo, mas feias de alma. Mal chegaram à nova casa começaram a atormentar a boa e piedosa enteada de sua mãe.
              - Você é uma pessoa horrorosa e nós não a queremos conosco; vá para a cozinha ajudar a criada, disseram elas.
              Em seguida foram ao seu quarto, abriram seu armário e se apossaram dos lindos vestidos que havia ganho de seus pais. Depois vestiram-na com o que havia de pior e também puseram-lhe um velho tamanco e mandaram que fosse para a cozinha trabalhar.
              A piedosa menina levantava-se muito cedo para lavar cozer e cozinhar. 
              As irmãs faziam-lhe todo o mal que podiam, sempre com as mais humilhantes palavras.
              Como havia sido expulsa de seu quarto, passava as noites sentada ao pé do fogão, pois nem cama tinha para deitar e descansar.  Como estava sempre suja de cinza puseram-lhe o nome de Gata borralheiro. 
              Certo dia seu pai foi a uma feira, mas antes de sair perguntou às suas enteadas: 
              - O que querem que lhes traga de presente? 
              - Os vestidos mais belos que encontrar, disse uma; 
              - As mais lindas e ricas jóias, disse a outra. 
              - E você minha querida filha, que queres que lhe traga? 
              - Paizinho, traze-me a primeira flor que encontrar no seu caminho de volta, respondeu-lhe. 
              O senhor foi então à feira e comprou lindas jóias e vestidos para as duas enteadas; na volta, ao passar por um bosque, lembrou-se do pedido da filha e colheu um raminho de rosa.
              Ao chegar em casa deu às enteadas o que haviam pedido e entregou o ramo de rosa para sua legítima filha. 
              Com aquele raminho nas mãos ela foi até o cemitério e enterrou-o junto ao túmulo de sua mãe. Tanto chorou que suas lágrimas irrigavam diariamente aquele raminho que logo se transformou numa bela roseira. 
              A Gata borralheira, sempre que podia, ia ver e admirar sua roseira que de tão grande se tornara uma verdadeira árvore. Notou que sempre que ela chegava vinha também um pequeno passarinho branco que lhe dava tudo o que ela pedia. 
              O rei daquele lugar mandou avisar e convidar a todos para a grande festa que daria a fim de que seu filho tivesse a oportunidade de escolher a mais bela das moças de seu reinado para ser sua esposa. 
              Quando as duas irmãs avarentas souberam da notícia ficaram enlouquecidas de felicidade e esperança. Chamaram a Gata borralheira e lhe disseram: 
              - Limpe muito bem nossos sapatos e penteie nossos cabelos que iremos a uma festa no palácio do rei. 
              Ouvindo isso a Gata borralheira começou a chorar e pediu à madrasta que a levasse também.
              - Está cheia de cinzas e poeira, disse-lhe a madrasta. Além disso como poderá dançar  se nem tem um par de sapatos? 
               Mas como ela insistia, a madrasta deu-lhe uma tarefa. Em seguida despejou um prato de lentilhas nas cinzas da lareira,  mandou que juntasse todas, uma a uma, separando as boas da ruins e disse: 
                - Se apanhar todas antes de duas horas poderá vir conosco. 
                A bondosa menina foi ao jardim e chamou seus amigos: 
                - Queridos pássaros, pombas, andorinhas, e todos os outros, por favor me ajudem; vamos separar as boas e por no prato as outras podem comer ou jogar fora. 
               Duas pombas brancas imediatamente apareceram na janela da cozinha; em seguida duas lindas andorinhas, e por fim uma grande quantidade de pássaros  voavam em volta da lareira. Não demorou muito e todos os grãos bons estavam no prato. Nem havia passado uma hora e a tarefa já estava cumprida. 
               A boa menina foi toda contente levar o prato à madrasta imaginando que esta a deixaria ir à festa.
               - Nada disso, Gata borralheira, não tem vestido e nem sabe dançar; certamente os outros convidados ririam de nós. 
                Mas vendo que a menina não parava de chorar, resolveu dar-lhe outra oportunidade. 
                - Se conseguir apanhar entre as cinzas dois pratos de lentilhas ao mesmo tempo eu a levarei à festa. 
                Pensando que ela jamais conseguiria, despejou dois pratos de lentilha nas cinzas e foi embora.
                A menina imediatamente correu até o jardim e chamou novamente seus amigos pássaros.
                Como da primeira vez entraram logo pela janela da cozinha duas pombas, duas andorinhas e uma grande quantidade de pássaros que esvoaçavam pela cozinha em volta da lareira. 
               Passado pouco mais de meia hora a tarefa já estava cumprida e as aves voaram para os céus. 
               Toda contente, a menina foi ter com a madrasta imaginando que agora ela cumpriria sua promessa, mas a madrasta lhe disse:
                - É inútil tentar, não pode vir conosco; iria nos envergonhar pois não sabes dançar e, além disso, nem tem uma roupa condizente com a pompa da festa que o rei irá dar. 
                Deu-lhe as costas e pôs-se a caminho do castelo com as duas filhas orgulhosas ricamente vestidas.
                Finalmente a Gata borralheira ficou sozinha em casa e então resolveu ir ao túmulo de sua mãe; sentou-se em baixo da roseira e começou a falar com o coração cheio de amor:
"Querida roseirinha 
Um vestido me vais dar
Que seja de ouro e prata
E lindo como o luar"
                Imediatamente um passarinho branco lhe trouxe um vestido de ouro e um par de sapatinhos bordados com prata. Em seguida ela vestiu-se, calçou os sapatinhos e foi para a festa. 
                  Nem a madrasta e nem a irmãs a conheceram. Estava deslumbrante e elas julgaram que seria alguma princesa estrangeira. Acharam-na muito linda com aquele vestido de ouro e maravilhosos sapatos; jamais poderiam imaginar que ela fosse a Gata borralheira que haviam deixado junto à lareira. 
                  Não demorou muito e o filho do rei veio ao seu encontro; pegou-a pela mão e começou a dançar com ela não deixando que mais ninguém a convidasse para ser seu par e quando outro rapaz se aproximava ele logo dizia: 
                  - Desculpe amigo, mas ela é meu par.
                  Dançaram até ao amanhecer e então a Gata borralheira lhe disse que deveria voltar para casa, mas o príncipe lhe disse: 
                  - Vou com você; preciso conhecê-la melhor. Mas ela o despistou e conseguiu fugir.
O príncipe foi então falar com seu pai, o poderoso rei, dizendo-lhe: 
                  - Meu bondoso pai, a donzela que me fascinou fugiu para o bosque e preciso encontrá-la. O rei mandou vários guardas do palácio para procurá-la, mas não conseguiram nem sinal da bela jovem que encantara o príncipe. 
                  Quando a malvada madrasta e suas filhas chegaram em casa tudo parecia normal. A Gata borralheira estava junto à lareira com um vestido velho e todo sujo de cinzas. A Gata borralheira tinha entrado rapidamente; estava muito cansada, pois havia corrido um longo trecho de chão pelo bosque e, ao passar pelo túmulo de sua mãe, trocara de roupa às pressas. 
                  No dia seguinte a festa continuou; seu pai, sua madrasta e a duas trapaceiras puseram-se a caminho do palácio para não chegarem atrasadas. A Gata borralheira correu para junto do túmulo de sua mãe, sentou-se em baixo da grande roseira e disse: 
"Querida roseirinha
Um vestido me vais dar
Que seja de ouro e prata
E tão lindo como o luar."
                 Imediatamente um pássaro desceu do céu e lhe deu um vestido mais lindo que o anterior e ricos sapatinhos  mais brilhantes que a luz do sol. Quando chegou à festa todos ficaram encantados com sua extraordinária beleza. 
                 O príncipe já estava aguardando sua chegada e logo veio ao seu encontro; tomou-a pela mão e juntos dançaram a noite toda. Quando alguém ousava convidá-la ele imediatamente dizia: 
                 - Desculpe amigo, mas ela é meu par. 
                 Ao amanhecer, a Gata borralheira quis retirar-se, mas o príncipe estava pronto para segui-la e descobrir onde morava. Ela fingiu que estava tudo bem e foi esconder-se no jardim onde havia uma grande árvore repleta mangas. Subiu na árvore e escondeu-se entre seus ramos. O príncipe tentou segui-la, mas ela o despistou e foi embora. 
                  Quando a madrasta e suas filhas chegaram em casa encontraram a Gata borralheira sentada junto à lareira como na noite anterior. Tinha feito o mesmo caminho passando pelo túmulo de sua mãe e trocado as lindas roupas pelo velho vestido sujo de cinzas. 
                 No terceiro dia de festa a gata borralheira esperou que todos saíssem e foi novamente sentar-se em baixo da roseira e disse: 
"Querida roseirinha
Um vestido me vais dar
Que seja de ouro e prata
E tão lindo como o luar."
                Mais uma vez o pássaro chegou com um vestido muito mais lindo que os dois anteriores e um par de sapatinhos de ouro. 
                 Quando apareceu na festa todos suspiraram assombrados com tanta beleza. O príncipe já a esperava e, como nas noites anteriores, dançaram até o amanhecer. Sempre que algum jovem se aproximava para convidá-la ele dizia: 
                 - Desculpe amigo, mas ela é meu par.
                 Ao amanhecer a Gata borralheira quis retirar-se às escondidas como nas noites anteriores. Mas o príncipe havia mandado  espalhar uma poderosa cola na escada e o sapatinho da bela jovem ficou fixado no primeiro degrau.  Ele não perdeu tempo e apanhou logo aquele lindo e pequenino sapatinho de ouro. 
                 No dia seguinte foi ter com o pai e disse-lhe: 
                 - Meu bondoso pai; já decidi como escolher aquela que será minha esposa; vou anadar por aí até encontrar uma jovem cujos pés caibam perfeitamente neste sapatinho. 
                  E logo em seguida montou seu cavalo e saiu andando por todos os lugares com aquele sapatinho de ouro. 
                  A notícia logo se espalhou e todas as jovens que encontrou tentaram calçar o sapatinho. É claro que todas faziam o maior esforço, pois queriam casar com o príncipe, mas nenhuma conseguia perque tinham pés muito grandes. Finalmente chegou à casa da Gata borralheira. 
                  As duas enteadas ficaram muito felizes e esperançosas porque tinham pés pequenos. 
                  A mais velha levou o sapato para o quarto para calçá-lo, mas foi impossível porque o polegar não cabia. A mãe, sempre ardilosa, entregou uma faca para a filha e lhe disse:
                  - Corta fora o dedo. Não lhe fará falta, pois sendo uma princesa nunca andará a pé 
                  A ambiciosa jovem concordou com a mãe e cortou o dedo; em seguida, com muito esforço,  conseguiu calçar o sapatinho de ouro e foi juntar-se ao filho do rei. Os dois montaram a cavalo e como noivos saíram cavalgando em direção ao palácio. Mas no caminho tiveram que passar pelo túmulo da mãe da Gata borralheira; ali estavam duas pombas que começaram e recitar: 
"Não sigas, príncipe amante; 
olha e repara um instante
que o sapatinho que essa tem 
para o seu pé não convém;
a tua noiva verdadeira 
está em casa junto à lareira."
                  Então o príncipe foi examinar seus pés e viu que corria sangue; montou com ela em seu cavalo e juntos chegaram à casa de sua mãe. Ele explicou que a outra filha deveria experimentar o sapato, pois aquela não era a verdadeira dona do sapatinho. Esta pegou logo o sapatinho e entrou no quarto para calçá-lo. A parte da frente entrava bem, mas o calcanhar era muito largo e não cabia de jeito nenhum. A mãe assistia a tudo e, ardilosa como sempre, mandou que a filha cortasse um pedaço do calcanhar, pois sendo uma princesa, nunca mais andaria a pé. 
                 A jovem obedeceu a mãe e cortou o calcanhar; pôs o pé dentro do sapatinho e foi ter com o príncipe. Sentia muita dor, mas conseguia dissimular. Em seguida, junto com o jovem príncipe, rumaram em direção ao palácio. 
                 Ao passarem junto ao túmulo lá estavam as duas pombas que novamente começaram a recitar: 
"Não sigas, príncipe amante; 
olha e repara um instante
que o sapatinho que essa tem
para o seu pé não convém; 
a tua noiva verdadeira 
está em casa junto à lareira. 
                  O príncipe desceu do cavalo, examinou os pés da jovem e viu que corria sangue. Imediatamente voltou para trás e devolveu a fingida noiva dizendo: 
                  - Também não é esta que eu procuro; por acaso tem outra filha, perguntou ao pai.
                  - Não, respondeu-lhe. Mas com minha primeira esposa tive uma filha que não não lhe deve servir, tanto que a chamamos de Gata borralheira.  Ela não é com certeza a noiva que procura. 
                  Apesar dos argumentos do pai, o príncipe insistiu em vê-la, mas a madrasta foi logo dizendo: 
                  - Não, não; ela está toda suja e não pode apresentar-se diante de uma pessoa tão importante como vossa majestade. 
                  Mas o príncipe não desistiu até que resolveram trazer a Gata borralheira. Esta foi primeiro lavar o rosto e as mãos e depois apresentou-se diante do príncipe que lhe entregou o sapatinho de ouro para provar. Sentou-se num banco de madeira, tirou o pezinho do pesado tamanco e sem a menor dificuldade calçou aquele lindo sapato. Foi quando finalmente se levantou que o príncipe viu seu rosto e logo reconheceu sua formosa princesa com quem tinha dançado e disse-lhe: 

                  - Esta é a minha verdadeira noiva!
                  A madrasta e as duas irmãs ficaram assombradas e pálidas de raiva; Mas ele montou seu cavalo com a Gata borralheira e partiu com ela para o palácio, onde seu pai o esperava. 
                  Quando passaram defronte ao túmulo lá estavam as duas pombas brancas sob a roseira e iniciaram seu recital: 
"Segue, príncipe, adiante
sem parar nenhum instante;
 já encontraste o pesinho 
a que serve o sapatinho." 
                   Após dizerem isto, os duas pombas brancas voaram e pousaram uma em cada ombro da Gata borralheira.
                   Passados alguns dias aconteceu uma grande festa para a celebração das bodas do jovem casal.
                   As duas falsas irmãs tentaram se aproximar da Gata borralheira e assim participarem felizes da sua vida. Quando foram para a igreja a mais velha tomou o lado direito e a mais nova o esquerdo, mas as duas pombas brancas que estavam nos ombros da Gata borralheira bicaram-nas nos dois olhos deixando-as cegas e assim castigando-as severamente pelas suas impiedosas maldades.
                  O jovem casal, príncipe e princesa, viveram felizes para sempre. 
Nicéas Romeo Zanchett 
               
        

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